sexta-feira, 29 de abril de 2011

Raízes revigoradas

Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo" de 29/abril/2011, caderno "Ilustrada"

Soul se volta às raízes e ganha paradas
por Adriana Ferreira Silva, editora do "Guia Folha"

Após retomada nos anos 90, estilo busca referência em sua época de ouro e disputa supremacia na indústria com o rap e o rock

Em formato atualizado ou no estilo retrô, gênero volta em peso e consagra nomes como Adele e James Blake

Amy Winehouse, 27, mais de 10 milhões de álbuns vendidos na era do download. Adele, 21, há 12 semanas se mantém no primeiro lugar das paradas britânicas. James Blake, 22, estreou em disco em fevereiro deste ano com elogios em sites e revistas do mundo todo.

Em comum, além de os três jovens cantores terem nascido no Reino Unido, está a soul music. O estilo, cuja época de ouro ocorreu no fim dos anos 1960, início dos 70, disputa com o pop rock e o hip-hop a supremacia da indústria musical. Com a vantagem de que os trabalhos mais criativos dos últimos anos têm referências, influências soul ou são pura e simplesmente retrô.

E esse não é um fenômeno exclusivamente britânico. Em seu país de origem, o soul embala os hits cafajestes de Cee Lo Green, ganha versão "funky" na voz de Janelle Monáe e faz sucesso em seu formato clássico com Sharon Jones and The Dap-Kings.

O hip-hop foi o responsável pelo "revival" do gênero, nos anos 90, com estrelas como Lauryn Hill, Erykah Badu e Alicia Keys, rimando no balanço dessa mistura de gospel e R&B, numa onda conhecida como "neo soul".

"Estamos agora numa fase retrô", afirma o cantor e produtor Simoninha, pesquisador do estilo. "A graça é gravar com equipamentos analógicos e lançar discos em vinil. É uma tendência se desprender das ferramentas digitais para criar ambientações de décadas passadas."

Para o produtor Pedro Albuquerque, curador do BMW Jazz Festival, que acontece em junho em São Paulo, esse retorno às raízes se personifica na figura do instrumentista americano Gabriel Roth, da banda The Dap-Kings.

Roth colaborou para o sucesso de Amy Winehouse, tocando e atuando como engenheiro de som no CD "Back to Black", lançou Sharon Jones e mantém uma gravadora, a Daptone, na qual os sintetizadores são "proibidos". "Tudo o que tocamos vem de instrumentos analógicos, e as gravações são feitas em rolos, como antigamente", explica Roth.

O rótulo, no entanto, incomoda a ele e a sua principal artista: "Não tenho nada de retrô", afirma Jones. "Minhas influências são daquela época, mas não parei no tempo."

Independentemente das etiquetas de "neo" ou retrô, as novas gerações trouxeram o estilo de volta às prateleiras. "Muita gente voltou a ouvir Otis Redding, e a procura por discos de Amy Winehouse se mantém grande", afirma Albuquerque, que também é consultor de acervo da Livraria da Travessa, no Rio. Lá, ele aposta numa seção dedicada ao soul, que, assim como em outros lugares, volta agora a ser pop.

domingo, 13 de março de 2011

Engenheiro vende...

Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo", de 13/março/2011, revista "sãopaulo"

PERFIL
O homem com mais de 1 milhão de discos
por Ronaldo Evangelista

Jorge Dias tem hoje um dos maiores acervos de vinis do Brasil, guardado na Mooca; engenheiro ajudou a implodir o Palace 2 e o Carandiru

Passando pelas ruas da Mooca , do Oratório ou dos Trilhos, é impossível não notar: os móveis, quadros, objetos e antiguidades ocupam todos os espaços, cobrindo portas e formando corredores. Os discos de vinil lotam estantes do chão ao teto com enorme pé-direito, e um casarão ostenta faixas de "Família vende tudo todos os dias".

São os quatro endereços da loja Presentes do Passado, também já conhecida como Sebo Jovem Guarda, cenário e memória viva da Mooca.

Por dentro, é ainda mais impressionante a variedade de coisas, em quantidade difícil de ser totalmente compreendida: máscaras africanas, órgãos analógicos, filmadoras, esculturas, revistas, lustres, pinturas, garrafas, muitos móveis, muitos quadros, muitos livros e muitos, muitos discos, além do simpático cão Delegado Billy e de sua namorada, Belinha, e do responsável por tudo, Manoel Jorge Diniz Dias, 55.

Até dois anos atrás, tudo não passava de hobby. Jorge — ou Manezinho da Implosão, como era conhecido — foi o engenheiro técnico responsável por "praticamente todas as implosões que você viu na televisão".

Entre os mais de 80 prédios e 200 pontes que trouxe abaixo, cinco pavilhões do Carandiru, o prédio da Cesp na avenida Paulista e a mais difícil e famosa implosão do Brasil: a do edifício Palace 2, em 1998. Em sua carreira de destruidor, dava até autógrafos.

Parafusos
Em 2000, com o mesmo impulso que o fazia visitar fábricas na infância para conseguir parafusos e revender em oficinas mecânicas, Jorge comprou, em um leilão, todo um lote de produtos da Avon, de calcinhas a CDs.

Montou ponto perto de casa, na rua do Oratório, e seguiram-se trocas e compras de livros. Em pouco tempo vieram telas e objetos e, finalmente, vinis. Hoje, Jorge é dono de um dos maiores acervos de discos do país, com mais de 1 milhão de itens.

"Quando garoto, colecionava chaveiros, caixas de fósforo, embalagens de cigarro", lembra. "Coleção tem um poder de sedução muito grande e só vai ganhando valor com o tempo."
Foi a paixão pelo colecionismo somada à experiência de reciclagem. "A demolição está sempre associada ao reaproveitamento. Você aproveita cada material", diz Jorge.

Caminhões de bolachas
Em 2003, Jorge encontrou um lojista interessado em vender um grande lote de vinis para comprar um imóvel. Com ele, era o inverso. "A gente se cruzou e comprei 200 mil discos de uma vez só", conta. "Tive que levar tudo em dinheiro e, toda noite, durante uma semana, carreguei caminhões e caminhões de discos de vinil."

Hoje, ele vem diminuindo o trabalho com as implosões e aumentando o tempo que dedica aos discos e às antiguidades, que já geram lucro.

Além de pagar seis aluguéis mensais para manter tudo estocado (um dos quatro galpões é composto por três imóveis conjugados), contratou uma equipe de nove pessoas, que passa os dias colocando todo tipo de coisa em sites de leilão na internet, como Mercado Livre e eBay.
Chegou a mil itens cadastrados por dia e já tem catalogados 290 mil. A meta é atingir meio milhão. Hoje, ele vende, em média, 40 objetos por dia.

Os números são tão altos que Jorge vislumbra a chance de criar um centro cultural. "Qualquer museu que a gente monte com esse acervo será maior que o de qualquer entidade", diz. "Penso em criar um polo cultural ou armar uma parceria, por exemplo, com o Instituto Moreira Salles. Mas ainda estamos avaliando tudo."

Curiosamente, Jorge não tem uma relação especial com a música. "Gosto mesmo é de olhar as capas", confessa, com sorriso de criança que completou a coleção.

SERVIÇO
Os 4 endereços da loja Presentes do Passado na Mooca R. dos Trilhos, 1.212; r. da Mooca, 3.401; r. da Mooca, 2.631; r. do Oratório, 838; tel. 2606-0127.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Taiguara, Vinicius...

Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo" de 17 de fevereiro de 2011, no caderno Cotidiano

"Que as crianças cantem livres!"
por Pasquale Cipro Neto

Os muros a que se refere Taiguara são sobretudo os metafóricos muros que separam as trevas da luz

A ANTOLÓGICA "Elegia na Morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes", de Vinicius de Moraes, começa assim: "A morte chegou pelo interurbano (...). Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva. De repente, não tinha pai. No escuro de minha casa em Los Angeles...".

O diplomata Vinicius de Moraes servia nos Estados Unidos quando seu pai morreu. Se você não conhece essa "Elegia", trate de conhecer. Basta entrar no belíssimo site de Vinicius e ler. E chorar. Chorar muito. Nas artes, Vinicius é um dos meus tantos "pais". Sinto-me "órfão" dele, assim como me sinto órfão de Drummond e de outros tantos.

Na música popular, também tenho os meus "pais", muitos dos quais os leitores conhecem bem. Mas um deles talvez eu tenha citado poucas vezes ao longo dos anos. Refiro-me a Taiguara, que morreu em 14 de fevereiro de 1996, ou seja, há quinze anos. Eu estava em Portugal e, como Vinicius, recebi a notícia fúnebre pelo telefone. Imediatamente me senti, mais uma vez, "órfão" de um poeta sensível e refinado.

Na hora, lembrei-me de uma conversa com um querido amigo dos tempos de colégio, o hoje jornalista Delamar da Cruz, sobre uma cena que presenciamos em nossa adolescência. Em plena Copa de 70, com a ditadura e a lavagem cerebral a mil, a multidão se reunia nas ruas, na praça da Sé ou em frente ao teatro Municipal, para ouvir os jogos. Já havia TV direta, mas não havia telões. Nas ruas, o negócio era mesmo o rádio. Enquanto o jogo não começava, música. E Taiguara, dizendo em sua antológica "Hoje": "Hoje / As minhas mãos enfraquecidas e vazias / Procuram nuas pelas luas, pelas ruas... / Na solidão das noites frias por você (...) Hoje / Homens de aço esperam da ciência / Eu desespero e abraço a tua ausência / Que é o que me resta vivo em minha sorte".

Imagine o contraste entre o frenesi do povo e o sentido da letra de Taiguara... O caro leitor notou como o poeta trabalha o par verbal "esperam/desespero"? Por favor, leia "desespéro" (é verbo). Notou que, em "eu desespero", Taiguara emprega o verbo com o sentido de "perder a esperança"? Na letra, esse verbo pode ser tomado como transitivo indireto, com objeto indireto subentendido ("eu desespero da ciência") ou simplesmente como intransitivo ("eu desespero", com o sentido seco de "perco a esperança").

Taiguara era nobreza pura. Em outra obra-prima, "Maria do Futuro", diz ele: "Nessa rede ela prendeu / Minha dor civil, minha solidão. / Nessa rede eu vi nascer minha liberdade (...) E em cadeias de amor puro / viver guardado / Joga areias do futuro no meu passado". Maravilha! Que beleza a aparente antítese "rede/liberdade"! Que bela noção de liberdade cria o jogo rede/cadeias/areias (do futuro no meu passado)! Bem, para muita gente não é tão fácil assim captar o que é a verdadeira liberdade, sobretudo quando ela vem por imagens poéticas...

Encerro esta lembrança de Taiguara com versos de uma de suas antológicas canções, cujo nome é o título desta coluna: "Vê como um fogo brando funde um ferro duro / Vê como o asfalto é teu jardim se você crê / Que há um sol nascente avermelhando o céu escuro / Chamando os homens pro seu tempo de viver / E que as crianças cantem livres sobre os muros / E ensinem sonho ao que não pôde amar sem dor...".

Os muros a que se refere Taiguara são muitos, mas são sobretudo os metafóricos muros das barreiras que separam as trevas da luz, a mediocridade da criatividade, a teimosia da abertura mental e psíquica, separam a inércia do movimento para a frente, para o novo, para a revisão do velho conceito. Onde estiver, um beijo, caro Taiguara. É isso.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Perdoem nossa falta de memória...

Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo" de 22/janeiro/2011 , no caderno "Opinião"

País esnobe
por Ruy Castro

RIO DE JANEIRO - Em 2011 teremos o centenário de muita gente boa da música brasileira -compositores e letristas a quem devemos tanta beleza e alegria na área do samba, do Carnaval, da valsa, do samba-canção, até do fox. Tais efemérides deveriam se estender pelo ano todo, com shows sobre eles por cantores novos e velhos, debates entre especialistas, lançamento e relançamento de seus discos e, quem sabe, biografias e documentários.

Mas, como aconteceu com Noel Rosa e outros que fizeram cem anos em 2010, esses artistas só serão lembrados no próprio dia do aniversário e, mesmo assim, por iniciativa de fãs devotados. Eis alguns.

A 1º de fevereiro, será o dia de Pedro Caetano, autor das obras-primas do samba "Foi uma Pedra que Rolou", "Onde Estão os Tamborins?" e "É Com Esse Que Eu Vou", e co-autor de "Caprichos do Destino", "Sandália de Prata", "A Dama de Vermelho", "Eu Brinco", "A Felicidade Perdeu seu Endereço". No dia 7, será a vez de José Maria de Abreu, cuja obra vai de valsas como "Boa Noite, Amor" à modernidade de "Alguém Como Tu" e à irresistível euforia de "Pegando Fogo".

Em março, teremos os cem anos de dois favoritos de Carmen Miranda: no dia 14, o de Synval Sylva ("Adeus, Batucada", "Ao Voltar do Samba", "Coração", "Gente Bamba"); no dia 19, o de Assis Valente ("Minha Embaixada Chegou", "E Bateu-se a Chapa", "Uva de Caminhão", "Recenseamento", "E o Mundo Não se Acabou", muitas mais). E, a 23 de maio, será a vez do letrista Mario Rossi, parceiro de Roberto Martins no samba "Beija-me" e no fox "Renúncia", e de Marino Pinto no bolero (sim!) "Que Será?" ("Da luz difusa do abajur lilás/ Se nunca mais vier a iluminar/ Outras noites iguais...").

Isto apenas entre os aniversariantes que serão esnobados no 1º. semestre. Mas, até o fim do ano, o Brasil promete superar-se e esnobar Nelson Cavaquinho.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O fim das grandes lojas de discos

Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo" de 31/dezembro/2010, no caderno "Opinião"

Música entre panelas
por Ruy Castro

RIO DE JANEIRO - No começo do século 20, não existiam lojas só de discos. Eles eram vendidos nas lojas de partituras e instrumentos musicais. Tanto fazia, era tudo música. Numa delas, em 1927, a Guitarra de Prata, até hoje na rua da Carioca, o jovem Mario Reis foi apresentado ao sambista Sinhô, do que resultou uma revolução. Dois anos depois, em outra loja, A Melodia, na rua Gonçalves Dias, a também jovem Carmen Miranda foi apresentada a Joubert de Carvalho e este lhe deu a canção "Pra Você Gostar de Mim". Que Carmen transformou na carnavalesca "Taí", e foi outra revolução.

Com o declínio das lojas de pianos, os discos passaram a ser vendidos nos fundos das lojas de eletrodomésticos, tipo Rei da Voz ou Casa Garson. Mas a música nunca se sentiu à vontade em meio àquelas ofertas de armários, colchões, artigos para banheiro, geladeiras e panelas. Foi preciso chegar aos anos 50 e 60 para surgir as lojas especializadas em discos — onde cantores, músicos, produtores, jornalistas e ouvintes se reuniam em função da música.

Esta noite, com o fim da Modern Sound, em Copacabana, a música perderá a última grande loja de discos do país. Um lugar onde, por 44 anos, as pessoas não só encontravam os discos que quisessem, mas se encontravam umas às outras e, dessa troca de fluidos e ideias, a música sempre saía ganhando.

A Modern Sound vai se juntar às suas irmãs — Brenno Rossi, em São Paulo, Templar, em Londres, Footlight, em Nova York, as gigantes Tower e HMV, e outras. Todas morreram nos últimos dez anos.

Ironicamente, as lojas de discos deixam de existir, mas continua-se a vender discos. Só que, agora, em certas livrarias, onde eles ainda encontram um ambiente acolhedor, e nos shoppings e grandes lojas — de novo em meio aos armários, colchões, artigos para banheiro, geladeiras e panelas.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Escolhas da década que passou...

Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo" de 29/dezembro/2010, no caderno "Ilustrada"

50 álbuns da década
por Marcus Preto, de São Paulo

Os discos que formaram a identidade da música brasileira nos anos 2000

Quais foram os álbuns que fizeram a identidade da música brasileira da década que termina na sexta-feira?Usando como critério não só a qualidade estética, mas também o sucesso mercadológico e a relevância que tiveram na transformação da indústria musical, editores e repórteres da Folha selecionaram os 50 discos mais representativos do que foi o Brasil nos dez anos passados.

A década começou subvertendo bossa nova em música eletrônica -primeiro pelas mãos do produtor Suba (1961-1999), depois por iniciativas de Fernanda Porto e DJ Marky, entre outros.

A seguir, o samba foi alçado a principal ingrediente na reformulação do pop. O processo partiu da revitalização da Lapa carioca, com Teresa Cristina à frente, chegando ao mainstream em álbuns de Marisa Monte, Maria Rita etc.

O ciclo ufanista diminuiu a partir de 2006. Agora, o pop absorve um sem número de gêneros e volta a beber do rock, da psicodelia e do folk.

Mas a principal revolução dos 00 não foi estética. Muito mais radical foi a transformação das relações entre ouvinte, música e indústria.

Com as facilidades tecnológicas de gravação, o artista independente, antes exceção, se tornou regra do mercado. Essa nova condição fez nascer o espírito colaborativo que resultaria em projetos coletivos como o Instituto, o +2 e a Orquestra Imperial.

Como lembra João Marcello Bôscoli, dono da gravadora Trama, "se por um lado a internet ajudou na derrocada da indústria do disco, por outro serviu de plataforma para novos artistas". Ele cita os exemplos do Cansei de Ser Sexy e de Mallu Magalhães.

Gêneros populares, o tecnobrega, do Pará, e o funk carioca brotaram e ganharam espaço à parte da indústria.

"A indústria só conseguiu manter o controle sobre o [segmento] sertanejo", diz Pena Schmidt, ex-executivo de gravadoras que hoje atua como diretor artístico do Auditório Ibirapuera. "Nem no axé eles mandam mais -a Ivete é dona do seu nariz."

Em contrapartida, a internet "tornou o sucesso fugaz", como acredita João Augusto, dono da pequena gravadora Deck Disc. "O moleque já coloca músicas no computador sabendo que vai jogar fora.

"Mesmo reconhecendo o quanto sua banda deve à internet, Adriano Cintra, baixista do Cansei de Ser Sexy, concorda com isso: "A música virou um acessório do iPod. Ninguém quer mais gastar dinheiro com ela".

DISCOTECA BÁSICA DOS ANOS 00

1.Bebel Gilberto - Tanto Tempo (2000)
2.Suba - São Paulo Confessions (2000)
3.Otto - Condom Black (2001)
4.Ana Carolina - Ana Rita Joana Iracema e Carolina (2001)
5.Seu Jorge - Samba Esporte Fino (2001)
6.Ivete Sangalo - Festa (2001)
7.Los Hermanos - Bloco do Eu Sozinho (2001)
8.Hamilton de Holanda - Hamilton de Holanda (2001)
9.Cachorro Grande - Cachorro Grande (2001)
10.Tribalistas - Tribalistas (2002)
11.Grupo Revelação - Ao Vivo no Olimpo (2002)
12.Mart'nália - Pé do Meu Samba (2002)
13.Instituto - Coleção Nacional (2002)
14.Max de Castro - Orquestra Klaxon (2002)
15.Fernanda Porto - Fernanda Porto (2002)
16.Teresa Cristina - Canta Paulinho da Viola (2002)
17.Zeca Pagodinho - Deixa a Vida me Levar (2002)
18.Nando Reis - A Letra A (2003)
19.Cibelle - Cibelle (2003)
20.Domenico + 2 - Sincerely Hot (2003)
21.DonaZica - Composição (2003)
22.Marcelo D2 - A Procura da Batida Perfeita (2003)
23.Pitty - Admirável Chip Novo (2003)
24.Maria Rita - Maria Rita (2003)
25.Banda Calypso - Ao Vivo em São Paulo (2003)
26.Mombojó - Nadadenovo (2004)
27.Cidadão Instigado - O Ciclo da De.Cadência (2004)
28.DJ Marky & XRS - In Rotation (2004)
29.Mônica Salmaso - Iaiá (2004)
30.Romulo Froes - Calado (2004)
31.Tati Quebra-Barraco - Boladona (2004)
32.Vanessa da Mata - Essa Boneca Tem Manual (2004)
33.Céu - Céu (2005)
34.Roberta Sá - Braseiro (2005)
35.Caetano Veloso - Cê (2006)
36.Kassin + 2 - Futurismo (2006)
37.NXZero - NXZero (2006)
38.Cansei de Ser Sexy - Cansei de Ser Sexy (2006)
39.Marisa Monte - Universo ao meu Redor e Infinito Particular (2006)
40.Orquestra Imperial - Carnaval Só Ano que Vem (2007)
41.Vanguart - Vanguart (2007)
42.Fernanda Takai - Onde Brilhem os Olhos Seus (2007)
43.César Menotti & Fabiano -.com_você (2007)
44.Tiê - Sweet Jardim (2008)
45.Cérebro Eletrônico - Pareço Moderno (2008)
46.Mallu Magalhães - Mallu Magalhães (2008)
47.Marcelo Camelo - Sou (2008)
48.Maria Gadú - Maria Gadú (2009)
49.Marcelo Jeneci - Feito pra Acabar (2010)
50.Tulipa Ruiz - Efêmera (2010)

Os melhores da música em 2010

Ilustrada elege os principais lançamentos da área neste ano e também aponta o que deu errado

Brasileiros
por Marcus Preto

MELHORES

"Feito pra Acabar", de Marcelo Jeneci
Treze hits em potencial que, se caírem no rádio, elevarão muito o nível da programação

"Azul" e "Vermelho", de Nina Becker
Delicada estreia solo da vocalista da Orquestra Imperial em dois álbuns complementares

"Petrobrás III - Devia Ser Proibido", de Itamar Assumpção
Itamar póstumo - e inédito - no mesmo alto nível dos melhores trabalhos que o compositor fez em vida

"Efêmera", de Tulipa
Nasce uma estrela à maneira moderna -sem pose, sem truques, sem frescura

"Vol.2", de Andreia Dias
A compositora mais original da nova geração segue provocativa e inovadora

PIOR

"Canta Bezerra da Silva", de Marcelo D2
Esperava-se muito e pouca coisa foi entregue


Internacionais
por Thales de Menezes

MELHORES

"Teen Dream", de Beach House
Uma francesa e um americano que conseguem fazer pop grudento, para tocar em festinha, mas com guitarras lentas, quase arrastadas

"The Drums", de The Drums
Roupinhas coloridas, dancinhas no palco, som para levantar o ânimo de qualquer um. Banda de moleques como sempre deveria ser

"Reimagines Gershwin", de Brian Wilson
O cara que reinventou o pop americano nos anos 1960 busca material com o sujeito que definiu o que era pop nos anos 1930 e 1940

"American Slang", de Gaslight Anthem
Punks tatuados de Nova Jersey, eles adoram Bruce Springsteen e Clash. Misturaram os dois com pitadas de fúria e deu muito certo

"The Suburbs", de Arcade Fire
Um terceiro disco muito melhor do que o segundo, que já era bem melhor que o ótimo primeiro. Onde esses canadenses vão parar?

PIOR

"Michael", de Michael Jackson
Coisas piores chegaram às lojas, mas nenhuma com a expectativa gerada por este álbum. Valeria um single, "Hollywood Tonight"

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O fim da Modern Sound

Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo" de 17/dezembro/2010, no caderno "Opinião"

Política suicida
por Ruy Castro

RIO DE JANEIRO - O desenho já se insinuava desde os anos 90. Se você tivesse uma loja de discos, pequena ou média -daquelas de rua, com clientes fiéis, não importava o sotaque musical da loja-, as dificuldades para trabalhar, mesmo que com lucros modestos, ficaram enormes. O problema não era vender. Era comprar.

Uma gravadora soltava o novo CD de um artista de venda certa, nacional ou estrangeiro. Se o disco custasse R$ 20 ao varejista, este teria de vendê-lo por R$ 30, para pagar os custos do ponto, os impostos, o contador, o empregado, a luz e ainda embolsar algum. O problema é que, por comprar quantidades menores de cada título, esse varejista seria um dos últimos a ser visitado pelo vendedor da gravadora.

Enquanto o disco do dito artista era procurado em vão na loja por seus clientes fiéis -e, quando finalmente aparecia, saía por R$ 30-, outro cliente não tão fiel vinha relatar que fora ao supermercado X ou à loja de departamentos Y, em busca de outra coisa, e deparara com pilhas do tal CD -por R$ 20. Claro, comprara-o. Com isto, o lojista perdia uma venda e, pior, perdia o cliente, que passava a chamá-lo de ladrão para todo mundo.

Essa política suicida, imposta pelas gravadoras, fechou milhares de lojas de discos no Brasil nos últimos 15 anos. Supermercados e grandes magazines trabalham com imensa variedade de produtos, dos quais o disco é apenas um, e nem de longe o mais importante. Mesmo assim, com sua clientela de milhares, podem comprar maciças quantidades de qualquer CD (o que baixa o preço de custo para cerca de R$ 15) e vendê-lo a R$ 20, ainda com lucro. É possível competir?

Este é um dos motivos do fim da loja Modern Sound, aqui no Rio, no próximo dia 31. O outro é a internet. Era talvez a última e melhor loja de discos de seu tamanho no mundo. Mundo este que, sem ela, fica menos suave e mais surdo.