Texto publicado no site http://www.estadao.com.br/, de 17/fevereiro/2012, 3h 04
Quase música
por Nelson Motta - O Estado de S.Paulo
Steve Jobs criou o iPod e revolucionou nossos hábitos de ouvir música, mas em casa só ouvia discos de vinil, contou seu amigo Neil Young, lenda viva do rock. Eles não se contentavam só com música e letra, canto e instrumentos - queriam que tudo isso soasse nos ouvidos com a potência, os timbres e a integridade da sua massa sonora original.
Como Tim Maia, queriam mais grave! Mais agudo! Mais eco! Mais retorno! Mais tudo! Porque nos fabulosos iPods, iPhones e iPads de Jobs o som que se ouve está comprimido em MP3 com apenas cerca de 10% dos sons que foram gravados. Para ouvi-lo mais próximo da gravação original, só em formatos como o wav, que contém muito mais dados, em arquivos muito mais pesados. Ou em vinil.
Mais do que uma discussão idiótica de audiófilos, de loucos por som, é um debate sobre pirataria, troca de arquivos, livre circulação de músicas na internet. Como a grande maioria dos consumidores de música se contenta em ouvir uma versão "popular" em MP3, isto também sugere novas ideias sobre o assunto. Neil Young (des)considera esses MP3 vagabundos que rolam na rede e nas bancas piratas como um novo rádio da era digital, uma difusão incontrolável, quase música; quem gosta de música de verdade compra um CD de boa qualidade sonora ou paga um download pesado de alta definição. Ou um vinil.
Mas como nada se compara ao impacto e sensação de ver e ouvir música ao vivo, de perto, em ambientes com boa acústica, a consequência direta da difusão maciça de (quase) música digital é uma espetacular valorização dos shows ao vivo, por ser uma experiência sensorial única e irrepetível, como o teatro.
No tempo do cassete, copiar músicas para um amigo era visto pelas gravadoras como divulgação de seus discos, por que agora fazê-lo por e-mail, ou num site de trocas, seria um crime? A irracionalidade e a ganância são atropeladas pela realidade tecnológica, o caminho sem volta faz uma curva ascendente.
Nos Estados Unidos, pela primeira vez o volume de downloads pagos superou as perdas com a comercialização de CDs, o futuro finalmente chegou para a nova indústria da música gravada.
Link original: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,quase-musica-,837009,0.htm
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
sábado, 21 de janeiro de 2012
R.I.P. Etta James — I love you!
Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo", de 21/janeiro/2012, seção "Opinião"
Explosiva, ela privilegiava a emoção, na vida e na música
por Carlos Calado, colaboração para a Folha
Na cena da música popular norte-americana, Etta James foi uma das cantoras que melhor expressaram, na década de 60, a dualidade poética e política da soul music.
Em canções repletas de referências a frustrações amorosas, esse gênero musical embutia também o desejo do negro de possuir os mesmos direitos dos outros cidadãos.
Ela colocava suas emoções à frente de tudo, tanto nos palcos como na vida. Era uma mulher extremada, capaz de revelar amor ou ódio com a mesma intensidade.
Cantava como falava: sabia ser suave, mas ficou conhecida pelas explosões, fossem de raiva, ressentimento ou sensualidade.
Quando esteve pela primeira vez no Brasil, em 1978, deu um show de excessos. Usando roupas espalhafatosas e um cabelão "black power", chocou parte da plateia com insinuações sexuais e gestos obscenos, mais apropriados a uma estrela junkie do rock.
Na década seguinte, surpreendeu de novo os fãs paulistanos. Já próxima dos 50, mais sóbria, entrou no palco como uma "lady", com joias e os cabelos alisados, mesmo deixando claro, logo depois, que não abandonara a atitude intensa e provocadora.
"Sou esquizofrênica até os ossos", diria ao escritor David Ritz, que assinou com ela a autobiografia "Rage to Survive" (algo como "avidez por sobreviver"), publicada em 1995. "Tive duas mães, duas infâncias e vivi duas vidas diferentes, em duas cidades. Talvez por isso tenha me tornado duas pessoas diferentes", completa.
Jamesetta Hawkins foi criada pelos tios. Sua mãe, que engravidou aos 14 anos, demorou a revelar à filha a identidade de seu pai.
"Eu a via como uma deusa distante, uma estrela que eu não podia tocar, não podia entender, nem mesmo chamar de mãe", contou a cantora, expondo uma de suas feridas mais profundas.
Juntando a isso seu precoce ingresso no "showbiz", seguido pelo envolvimento com drogas pesadas, pode-se entender o explosivo contexto de suas interpretações para sucessos como "Tell Mama", "I'd Rather Go Blind" ou "All I Could Do Was Cry".
Pena que a romântica balada "At Last", um de seus maiores hits, tenha sido pivô de um episódio constrangedor, já nos seus últimos anos.
Etta não perdoou o fato de Beyoncé, que a interpretou no filme "Cadillac Records" (2008), ter sido convidada a cantar a música em festa que comemorou a posse do presidente Obama, em 2009.
"Ninguém vai roubar essa canção de mim. Ela é minha", desabafou ao se apresentar no Jazz Fest de Nova Orleans, assim como faria em outras aparições naquele ano.
Uma intérprete de sua importância não precisaria ter escancarado publicamente esse ressentimento. Mas a impulsiva Etta James preferiu dar voz às suas emoções até o final da vida.
Explosiva, ela privilegiava a emoção, na vida e na música
por Carlos Calado, colaboração para a Folha
Na cena da música popular norte-americana, Etta James foi uma das cantoras que melhor expressaram, na década de 60, a dualidade poética e política da soul music.
Em canções repletas de referências a frustrações amorosas, esse gênero musical embutia também o desejo do negro de possuir os mesmos direitos dos outros cidadãos.
Ela colocava suas emoções à frente de tudo, tanto nos palcos como na vida. Era uma mulher extremada, capaz de revelar amor ou ódio com a mesma intensidade.
Cantava como falava: sabia ser suave, mas ficou conhecida pelas explosões, fossem de raiva, ressentimento ou sensualidade.
Quando esteve pela primeira vez no Brasil, em 1978, deu um show de excessos. Usando roupas espalhafatosas e um cabelão "black power", chocou parte da plateia com insinuações sexuais e gestos obscenos, mais apropriados a uma estrela junkie do rock.
Na década seguinte, surpreendeu de novo os fãs paulistanos. Já próxima dos 50, mais sóbria, entrou no palco como uma "lady", com joias e os cabelos alisados, mesmo deixando claro, logo depois, que não abandonara a atitude intensa e provocadora.
"Sou esquizofrênica até os ossos", diria ao escritor David Ritz, que assinou com ela a autobiografia "Rage to Survive" (algo como "avidez por sobreviver"), publicada em 1995. "Tive duas mães, duas infâncias e vivi duas vidas diferentes, em duas cidades. Talvez por isso tenha me tornado duas pessoas diferentes", completa.
Jamesetta Hawkins foi criada pelos tios. Sua mãe, que engravidou aos 14 anos, demorou a revelar à filha a identidade de seu pai.
"Eu a via como uma deusa distante, uma estrela que eu não podia tocar, não podia entender, nem mesmo chamar de mãe", contou a cantora, expondo uma de suas feridas mais profundas.
Juntando a isso seu precoce ingresso no "showbiz", seguido pelo envolvimento com drogas pesadas, pode-se entender o explosivo contexto de suas interpretações para sucessos como "Tell Mama", "I'd Rather Go Blind" ou "All I Could Do Was Cry".
Pena que a romântica balada "At Last", um de seus maiores hits, tenha sido pivô de um episódio constrangedor, já nos seus últimos anos.
Etta não perdoou o fato de Beyoncé, que a interpretou no filme "Cadillac Records" (2008), ter sido convidada a cantar a música em festa que comemorou a posse do presidente Obama, em 2009.
"Ninguém vai roubar essa canção de mim. Ela é minha", desabafou ao se apresentar no Jazz Fest de Nova Orleans, assim como faria em outras aparições naquele ano.
Uma intérprete de sua importância não precisaria ter escancarado publicamente esse ressentimento. Mas a impulsiva Etta James preferiu dar voz às suas emoções até o final da vida.
domingo, 18 de dezembro de 2011
Era digital provoca mudança dos ventos
Texto publicado no site do jornal "O Globo", de 18/dezembro/2011, 7h35, atualizado 8h01, link: http://oglobo.globo.com/cultura/era-digital-da-musica-pune-os-artistas-que-nao-fazem-shows-3470469
Era digital da música pune os artistas que não fazem shows
por Luiz Fernando Vianna
Compositores veem queda de sua renda e da importância das canções
RIO - O letrista Mauro Aguiar diz que ser compositor hoje equivale a ter começado a fazer sexo na época da explosão da Aids.
A comparação se baseia nas dificuldades enfrentadas pelos autores que não costumam fazer shows, já que os avanços digitais, embora ampliem as possibilidades de gravação e divulgação, retiram os direitos autorais do centro do sistema de remuneração de artistas, lugar ocupado agora pelas apresentações ao vivo.
Na imensidão da internet, não há como aferir o quanto uma música é trocada ou tocada, enfraquecendo mais os que já arrecadam pouco com vendas de discos e execuções em rádios, privilégios de uma minoria. Um alento para eles foi o lançamento, na semana passada, da loja iTunes no Brasil, que poderá transformar em renda parte dessa movimentação virtual.
"O futuro do artista está no palco. O disco será só o ingresso. Imagino o momento em que vou me apresentar numa cidade por um preço que muita gente achará caro, mas quem pagar terá o seu artista num momento único, e ganhará um kit com CD, DVD e MP3", disse Lenine à revista "Piauí" em novembro.
Esse cenário torna nebuloso o futuro do artista que não ganha cachê para subir ao palco.
— As críticas ao capital no século XX são eivadas dessas atitudes receosas em relação às novidades: "Vai tirar do mercado uma quantidade significativa de criadores, produtores." Não tem jeito, é assim — afirmou Gilberto Gil em recente entrevista ao GLOBO.
Defesa das canções
As posições de Gil pró-cultura digital lhe custaram, durante os anos em que foi ministro da Cultura (2003 a 2008), polêmicas com letristas, entre eles Aldir Blanc e Ronaldo Bastos.
— O discurso da modernidade não pode ser contra o artista. Eu tenho certo orgulho de estar na contramão — afirma Ronaldo, que diz ter realizado neste ano o CD "Liebe Paradiso" para salvar sua vida e se livrar das conversas sobre direitos autorais, pois sua preocupação é a canção, cuja importância vem sendo reduzida, a seu ver.
— A canção é o fundamento da atividade artística e do negócio que gira em torno da música popular. Os cantores estão virando compositores, fazem coisas legais, bem produzidas, mas faltam as grandes canções. Querem fazer música brega e não são viscerais como os bregas originais.
Aldir, letrista de várias grandes canções, mas sem temperamento ou saúde para realizar shows, está sentindo as consequências da nova economia da música.
— Minha renda mensal cai há anos, e cada ano é pior que o anterior. No momento, estamos vivendo de empréstimos bancários e adiantamentos, cada vez mais difíceis, porque viram bolas de neve. Março, junho, setembro e dezembro costumavam ser os melhores meses, porque ao pagamento do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) somavam-se os pagamentos das editoras pelas vendas de discos. Hoje, você ter a abertura da novela "O astro" ("Bijuterias", música dele com João Bosco) não representa mais nada, seja como direitos de execução, seja como venda.
Maior transparência do Ecad é o que, como tantos outros, pede Mauro Aguiar, de 43 anos. Mesmo gravada por Ney Matogrosso, uma parceria sua com Zé Paulo Becker não lhe rendeu mais de R$ 200. Seu maior retorno se deu quando "Baião de Guanabara" (melodia de Guinga) foi gravada por Sergio Mendes nos EUA, onde as regras são mais claras.
— Resolvi fazer discos e shows para ter mais acesso ao público, mas sempre tive prejuízo nos shows — diz ele, que trabalha como designer.
As mudanças afetaram até um antigo campeão de vendas como Zeca Pagodinho. Os compositores de seus sucessos, que recebiam gordos adiantamentos, hoje também apostam em shows para complementar a renda.
— O ruim é passar vergonha, porque não entendem como o autor de "Deixa a vida me levar" não tem muito dinheiro — brinca Serginho Meriti.
Era digital da música pune os artistas que não fazem shows
por Luiz Fernando Vianna
Compositores veem queda de sua renda e da importância das canções
RIO - O letrista Mauro Aguiar diz que ser compositor hoje equivale a ter começado a fazer sexo na época da explosão da Aids.
A comparação se baseia nas dificuldades enfrentadas pelos autores que não costumam fazer shows, já que os avanços digitais, embora ampliem as possibilidades de gravação e divulgação, retiram os direitos autorais do centro do sistema de remuneração de artistas, lugar ocupado agora pelas apresentações ao vivo.
Na imensidão da internet, não há como aferir o quanto uma música é trocada ou tocada, enfraquecendo mais os que já arrecadam pouco com vendas de discos e execuções em rádios, privilégios de uma minoria. Um alento para eles foi o lançamento, na semana passada, da loja iTunes no Brasil, que poderá transformar em renda parte dessa movimentação virtual.
"O futuro do artista está no palco. O disco será só o ingresso. Imagino o momento em que vou me apresentar numa cidade por um preço que muita gente achará caro, mas quem pagar terá o seu artista num momento único, e ganhará um kit com CD, DVD e MP3", disse Lenine à revista "Piauí" em novembro.
Esse cenário torna nebuloso o futuro do artista que não ganha cachê para subir ao palco.
— As críticas ao capital no século XX são eivadas dessas atitudes receosas em relação às novidades: "Vai tirar do mercado uma quantidade significativa de criadores, produtores." Não tem jeito, é assim — afirmou Gilberto Gil em recente entrevista ao GLOBO.
Defesa das canções
As posições de Gil pró-cultura digital lhe custaram, durante os anos em que foi ministro da Cultura (2003 a 2008), polêmicas com letristas, entre eles Aldir Blanc e Ronaldo Bastos.
— O discurso da modernidade não pode ser contra o artista. Eu tenho certo orgulho de estar na contramão — afirma Ronaldo, que diz ter realizado neste ano o CD "Liebe Paradiso" para salvar sua vida e se livrar das conversas sobre direitos autorais, pois sua preocupação é a canção, cuja importância vem sendo reduzida, a seu ver.
— A canção é o fundamento da atividade artística e do negócio que gira em torno da música popular. Os cantores estão virando compositores, fazem coisas legais, bem produzidas, mas faltam as grandes canções. Querem fazer música brega e não são viscerais como os bregas originais.
Aldir, letrista de várias grandes canções, mas sem temperamento ou saúde para realizar shows, está sentindo as consequências da nova economia da música.
— Minha renda mensal cai há anos, e cada ano é pior que o anterior. No momento, estamos vivendo de empréstimos bancários e adiantamentos, cada vez mais difíceis, porque viram bolas de neve. Março, junho, setembro e dezembro costumavam ser os melhores meses, porque ao pagamento do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) somavam-se os pagamentos das editoras pelas vendas de discos. Hoje, você ter a abertura da novela "O astro" ("Bijuterias", música dele com João Bosco) não representa mais nada, seja como direitos de execução, seja como venda.
Maior transparência do Ecad é o que, como tantos outros, pede Mauro Aguiar, de 43 anos. Mesmo gravada por Ney Matogrosso, uma parceria sua com Zé Paulo Becker não lhe rendeu mais de R$ 200. Seu maior retorno se deu quando "Baião de Guanabara" (melodia de Guinga) foi gravada por Sergio Mendes nos EUA, onde as regras são mais claras.
— Resolvi fazer discos e shows para ter mais acesso ao público, mas sempre tive prejuízo nos shows — diz ele, que trabalha como designer.
As mudanças afetaram até um antigo campeão de vendas como Zeca Pagodinho. Os compositores de seus sucessos, que recebiam gordos adiantamentos, hoje também apostam em shows para complementar a renda.
— O ruim é passar vergonha, porque não entendem como o autor de "Deixa a vida me levar" não tem muito dinheiro — brinca Serginho Meriti.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Obesidade musical
Texto publicado no jornal "O Estado de S.Paulo", de 4/novembro/2011, caderno "Nacional"
Música, tecnologia e bananas
por Nelson Motta
Já vai longe o tempo em que a música popular ambicionava, e tinha, uma certa transcendência. Quando marcava e comentava momentos históricos e sociais importantes, era a trilha sonora de um mundo em transformação. Na era digital tudo mudou, a música se banalizou, está em toda parte, a todo momento, acessível a todos.
Hoje, todo mundo pode até fazer música, mesmo sem saber música. Com programas como o Garage Band qualquer um faz uma orquestração com cordas, metais, palhetas e percussões, com incontáveis ritmos e timbres e múltiplas escolhas de fraseados, tudo pré-gravado e programado para se harmonizar entre si. Nada garante que saiam bons arranjos, mas não ficam longe do que se ouve na música comercial de hoje...
No fim do século 20, David Bowie previa que, no futuro, o comércio de música digital seria como a energia elétrica, o gás, e a TV a cabo. O cliente teria uma assinatura e pagaria pelo seu consumo mensal. A música seria uma commodity, vendida a preço de banana. Tantos watts de eletricidade, tantos canais de TV, tantos quilos? Litros? Metros? Bites? de música.
Hoje, além de novos modelos de negócio que florescem em países com a cultura de pagar pelo que se consome, a comercialização globalizada de música, legal e pirata, acabou com o que restava das antigas ilusões de relevância, transcendência e glamour da música popular, que a velha indústria do disco desenvolveu, e sugou, à exaustão. A vulgaridade se tornou um valor indispensável ao sucesso de massa. Em compensação fazer e consumir arte musical se tornou mais fácil e acessível, bastam talento e um laptop. Há gosto para tudo.
Hoje, a música popular, a melhor e a pior, se tornou irreversivelmente banal, como uma banana. O contraponto da 'bananização' da música gravada é a valorização da música ao vivo, quando se cria entre o artista e o público uma relação pessoal e intransferível, muito além do contato virtual.
Há 20 anos, Caetano Veloso falava sobre fazer, ou não, novas músicas e dizia que já havia música demais em toda parte. E eu concordava com ele. Imagine agora.
Mas, afinal, para que serve a música?
Música, tecnologia e bananas
por Nelson Motta
Já vai longe o tempo em que a música popular ambicionava, e tinha, uma certa transcendência. Quando marcava e comentava momentos históricos e sociais importantes, era a trilha sonora de um mundo em transformação. Na era digital tudo mudou, a música se banalizou, está em toda parte, a todo momento, acessível a todos.
Hoje, todo mundo pode até fazer música, mesmo sem saber música. Com programas como o Garage Band qualquer um faz uma orquestração com cordas, metais, palhetas e percussões, com incontáveis ritmos e timbres e múltiplas escolhas de fraseados, tudo pré-gravado e programado para se harmonizar entre si. Nada garante que saiam bons arranjos, mas não ficam longe do que se ouve na música comercial de hoje...
No fim do século 20, David Bowie previa que, no futuro, o comércio de música digital seria como a energia elétrica, o gás, e a TV a cabo. O cliente teria uma assinatura e pagaria pelo seu consumo mensal. A música seria uma commodity, vendida a preço de banana. Tantos watts de eletricidade, tantos canais de TV, tantos quilos? Litros? Metros? Bites? de música.
Hoje, além de novos modelos de negócio que florescem em países com a cultura de pagar pelo que se consome, a comercialização globalizada de música, legal e pirata, acabou com o que restava das antigas ilusões de relevância, transcendência e glamour da música popular, que a velha indústria do disco desenvolveu, e sugou, à exaustão. A vulgaridade se tornou um valor indispensável ao sucesso de massa. Em compensação fazer e consumir arte musical se tornou mais fácil e acessível, bastam talento e um laptop. Há gosto para tudo.
Hoje, a música popular, a melhor e a pior, se tornou irreversivelmente banal, como uma banana. O contraponto da 'bananização' da música gravada é a valorização da música ao vivo, quando se cria entre o artista e o público uma relação pessoal e intransferível, muito além do contato virtual.
Há 20 anos, Caetano Veloso falava sobre fazer, ou não, novas músicas e dizia que já havia música demais em toda parte. E eu concordava com ele. Imagine agora.
Mas, afinal, para que serve a música?
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Duetos com Tony Bennett
Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo", de 11/outubro/2011, caderno "Ilustrada"
Bennett remoça jazz com Gaga, Amy e cia.
por Ronaldo Evangelista, colaboração para a Folha
Clássico "Body and Soul" foi a última gravação de Winehouse
"Duets 2" já entrou nas paradas de EUA e Reino Unido; Norah Jones e k.d. lang reforçam escalação de parceiros
Seria um simples disco de duetos, como o volume que lançou em 2006, com Tony Bennett — então com 80 anos, hoje com 85 — cantando um repertório clássico com novos parceiros, como Lady Gaga, Norah Jones e Mariah Carey. Mas o recém-lançado "Duets 2", que já lidera paradas americanas e britânicas, ganhou um peso emocional especial.
Notoriamente, deu-se que o encontro de mister Bennett com a jovem Amy Winehouse, para interpretarem juntos versão climática e intensa da música "Body and Soul", foi a última passagem da cantora por um estúdio e sua gravação final, poucos meses antes de morrer.
Assim como no primeiro "Duets", Bennett se encontrou com cada músico para gravar em dupla, pessoalmente, ao vivo. O que significa que o cantor gravou em casa, Nova York, com colegas como Lady Gaga, mas também viajou a lugares como Itália, para encontrar Andrea Bocelli, e Londres, para gravar com Amy.
O encontro humano e a interpretação olho no olho trazem ao disco um calor que cantores de vitalidade especial, como Amy, sabem aproveitam para máxima emoção. Sua performance, entregue como de hábito, e com forte influência de entonações e fraseados jazzísticos, é de estimular os ouvidos, mas de partir o coração.
"Ah, foi muito triste", falou Bennett à Folha, por telefone, sobre a partida da colega. "Ela era uma cantora muito boa, na tradição das grandes cantoras de jazz. E era tão boa quanto qualquer outra que já ouvi. Você pode ouvir isso no disco: se escutar 'Body and Soul' com atenção, pode perceber o quanto ela já sabia o que fazer e como fazer ao começar a cantar."
Desde o começo de sua carreira Bennett, é íntimo do jazz — chegou a gravar em dupla com o pianista Bill Evans nos anos 1970. "Acredito no jazz", comentou ele. "Acho que é um talento maravilhoso, ser capaz de improvisar — porque aí você trabalha para o momento, é algo muito honesto. É uma grande forma de arte. Aliás, o único arrependimento que eu tenho é de nunca ter gravado um dueto com Louis Armstrong."
Definindo-se como um "entertainer", o cantor explicou que a força do repertório que interpreta há cinco décadas sem grandes variações é a beleza das canções e sua qualidade atemporal.
"Nenhum país deu ao mundo tantas canções populares quanto os Estados Unidos", observa. "Todos conhecem e amam as composições de Cole Porter, Johnny Mercer. Essa música nunca vai morrer, ela vai eventualmente se tornar música clássica americana."
DUETS 2
ARTISTA Tony Bennett
GRAVADORA Sony Music
QUANTO R$ 59,90 (CD+DVD)
----------
ALGUNS PARCEIROS DE TONY BENNETT
AMY WINEHOUSE
"Body and Soul"
LADY GAGA
"The Lady Is a Tramp"
ARETHA FRANKLIN
"How do You Keep the Music Playing"
NORAH JONES
"Speak Low"
MARIAH CAREY
"When do the Bells Ring for Me"
QUEEN LATIFAH
"Who Can I Turn to (When Nobody Needs Me)"
K.D. LANG
"Blue Velvet"
ANDREA BOCELLI
"Stranger in Paradise"
Bennett remoça jazz com Gaga, Amy e cia.
por Ronaldo Evangelista, colaboração para a Folha
Clássico "Body and Soul" foi a última gravação de Winehouse
"Duets 2" já entrou nas paradas de EUA e Reino Unido; Norah Jones e k.d. lang reforçam escalação de parceiros
Seria um simples disco de duetos, como o volume que lançou em 2006, com Tony Bennett — então com 80 anos, hoje com 85 — cantando um repertório clássico com novos parceiros, como Lady Gaga, Norah Jones e Mariah Carey. Mas o recém-lançado "Duets 2", que já lidera paradas americanas e britânicas, ganhou um peso emocional especial.
Notoriamente, deu-se que o encontro de mister Bennett com a jovem Amy Winehouse, para interpretarem juntos versão climática e intensa da música "Body and Soul", foi a última passagem da cantora por um estúdio e sua gravação final, poucos meses antes de morrer.
Assim como no primeiro "Duets", Bennett se encontrou com cada músico para gravar em dupla, pessoalmente, ao vivo. O que significa que o cantor gravou em casa, Nova York, com colegas como Lady Gaga, mas também viajou a lugares como Itália, para encontrar Andrea Bocelli, e Londres, para gravar com Amy.
O encontro humano e a interpretação olho no olho trazem ao disco um calor que cantores de vitalidade especial, como Amy, sabem aproveitam para máxima emoção. Sua performance, entregue como de hábito, e com forte influência de entonações e fraseados jazzísticos, é de estimular os ouvidos, mas de partir o coração.
"Ah, foi muito triste", falou Bennett à Folha, por telefone, sobre a partida da colega. "Ela era uma cantora muito boa, na tradição das grandes cantoras de jazz. E era tão boa quanto qualquer outra que já ouvi. Você pode ouvir isso no disco: se escutar 'Body and Soul' com atenção, pode perceber o quanto ela já sabia o que fazer e como fazer ao começar a cantar."
Desde o começo de sua carreira Bennett, é íntimo do jazz — chegou a gravar em dupla com o pianista Bill Evans nos anos 1970. "Acredito no jazz", comentou ele. "Acho que é um talento maravilhoso, ser capaz de improvisar — porque aí você trabalha para o momento, é algo muito honesto. É uma grande forma de arte. Aliás, o único arrependimento que eu tenho é de nunca ter gravado um dueto com Louis Armstrong."
Definindo-se como um "entertainer", o cantor explicou que a força do repertório que interpreta há cinco décadas sem grandes variações é a beleza das canções e sua qualidade atemporal.
"Nenhum país deu ao mundo tantas canções populares quanto os Estados Unidos", observa. "Todos conhecem e amam as composições de Cole Porter, Johnny Mercer. Essa música nunca vai morrer, ela vai eventualmente se tornar música clássica americana."
DUETS 2
ARTISTA Tony Bennett
GRAVADORA Sony Music
QUANTO R$ 59,90 (CD+DVD)
----------
ALGUNS PARCEIROS DE TONY BENNETT
AMY WINEHOUSE
"Body and Soul"
LADY GAGA
"The Lady Is a Tramp"
ARETHA FRANKLIN
"How do You Keep the Music Playing"
NORAH JONES
"Speak Low"
MARIAH CAREY
"When do the Bells Ring for Me"
QUEEN LATIFAH
"Who Can I Turn to (When Nobody Needs Me)"
K.D. LANG
"Blue Velvet"
ANDREA BOCELLI
"Stranger in Paradise"
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
A crítica é sempre relativa...
Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo", de 2/outubro/2011, seção "Ombudsman"
IT´S ONLY ROCK´ N´ ROLL (but I like it)
por Suzana Singer, ombudsman@uol.com.br
Elton John "esfriou a plateia", onde "sobraram alguns cinquentões com sorriso no rosto" (Folha) ou o "público vibrou a cada gesto do cantor inglês" ("Estado")?
O show de Mike Patton, vocalista do Faith No More, foi "original e surpreendente" (Folha) ou apenas "uma enxurrada de clichês musicais, num clima de tarantela americanizada" ("Estado")?
O NX Zero merece estar entre as melhores performances (Folha) ou foi um zero à esquerda ("O Globo")?
As divergências acima dizem respeito ao Rock in Rio, que termina hoje. Elas desnudam o grau de subjetividade que existe na crítica musical -até em aspectos empíricos, como a reação do público.
Exemplos assim devem se tornar cada vez mais frequentes. Megashows no Brasil não são mais bissextos, mal termina esta edição do Rock in Rio, que reuniu 100 mil pessoas por noite, começa o SWU, com 12 atrações internacionais de peso.
Está na hora de o país ter uma crítica de rock mais profissional. Não basta jogar às alturas ou aos fogos do inferno. Quem escreve deve levar em consideração os objetivos do artista. "É uma estupidez completa dizer que as letras de axé são ruins. O que esse gênero se propõe é fazer as pessoas pularem Carnaval. E faz. O rock também é um troço simples, mas há espaço para ambições maiores, o duro é cumpri-las. Nesse sentido, o Vanguart é muito pior do que a Ivete Sangalo, porque ela chega aonde se propõe", afirma André Forastieri, 46, do site "R7".
A crítica deve informar, não só opinar. Quem escreve precisa ter repertório, conhecer história do rock e, sonho de consumo, ter uma razoável formação cultural.
"Criticar show não é contar quantas vezes a Rihanna mudou de roupa ou dizer que Claudia Leitte entrou voando. Precisa entender o contexto em que a banda estourou, o porquê daquelas músicas, avaliar a empolgação no palco", diz André Barcinski, 43, que escreve para a Folha.
Todos esses elementos ajudam a diminuir o peso do gosto pessoal, mas não o eliminam. Isenção total não existe. Quanto mais sincero o jornalista, mais ele deixa explícitas as suas idiossincrasias.
"Tem coisas altamente importantes na música pop para as quais a gente torce o nariz. Rock progressivo, por exemplo. Não dá pra desprezar um Genesis, Yes ou Emerson Lake and Palmer", diz o músico e produtor Kid Vinil, 56.
Marcelo Orozco, 44, editor da "Vip", usa como exemplo um jornalista fã do Sex Pistols, que será incapaz de elogiar um show de Dave Matthews Band. "O problema é avaliar um levando em conta os padrões do outro. Os leitores se sentem, com razão, aviltados."
O ideal é que o crítico tenha alguma afinidade com o que vai cobrir, mas não em demasia. Não deve se comportar como fã. "É o desapego que faz com que o cara diga certas verdades, que, se ele tiver uma relação emocional com o tema, vai omitir", assinala Pablo Miyazawa, 33, editor-chefe da "Rolling Stone".
O "desapego" permite ao resenhista ser implacável. No segundo Rock in Rio (1991), Luis Antônio Giron escrevia na Ilustrada que "Prince se deixou acompanhar por uma banda cujo som equivale a 80 Titãs bem-amestrados".
Desde então, muita coisa mudou. Prince e Titãs estão no ocaso e as pessoas não precisam mais da mídia tradicional para conhecer novos artistas: elas têm rádios na internet, sites de música, blogs, jornais especializados, YouTube, redes sociais.
Acabou-se o tempo em que privilegiados tinham acesso à produção estrangeira e traziam as novidades a Pindorama. Só que a quantidade de bandas novas é tamanha que os críticos de jornais e revistas servem de chancela. Eles são uma bússola no oceano pop. Não é o poder de outrora, mas ainda é uma tremenda responsabilidade.
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Suzana Singer é a ombudsman da Folha desde 24 de abril de 2010. O ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Não pode ser demitido durante o exercício da função e tem estabilidade por seis meses após deixá-la. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclamações, e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.
IT´S ONLY ROCK´ N´ ROLL (but I like it)
por Suzana Singer, ombudsman@uol.com.br
Elton John "esfriou a plateia", onde "sobraram alguns cinquentões com sorriso no rosto" (Folha) ou o "público vibrou a cada gesto do cantor inglês" ("Estado")?
O show de Mike Patton, vocalista do Faith No More, foi "original e surpreendente" (Folha) ou apenas "uma enxurrada de clichês musicais, num clima de tarantela americanizada" ("Estado")?
O NX Zero merece estar entre as melhores performances (Folha) ou foi um zero à esquerda ("O Globo")?
As divergências acima dizem respeito ao Rock in Rio, que termina hoje. Elas desnudam o grau de subjetividade que existe na crítica musical -até em aspectos empíricos, como a reação do público.
Exemplos assim devem se tornar cada vez mais frequentes. Megashows no Brasil não são mais bissextos, mal termina esta edição do Rock in Rio, que reuniu 100 mil pessoas por noite, começa o SWU, com 12 atrações internacionais de peso.
Está na hora de o país ter uma crítica de rock mais profissional. Não basta jogar às alturas ou aos fogos do inferno. Quem escreve deve levar em consideração os objetivos do artista. "É uma estupidez completa dizer que as letras de axé são ruins. O que esse gênero se propõe é fazer as pessoas pularem Carnaval. E faz. O rock também é um troço simples, mas há espaço para ambições maiores, o duro é cumpri-las. Nesse sentido, o Vanguart é muito pior do que a Ivete Sangalo, porque ela chega aonde se propõe", afirma André Forastieri, 46, do site "R7".
A crítica deve informar, não só opinar. Quem escreve precisa ter repertório, conhecer história do rock e, sonho de consumo, ter uma razoável formação cultural.
"Criticar show não é contar quantas vezes a Rihanna mudou de roupa ou dizer que Claudia Leitte entrou voando. Precisa entender o contexto em que a banda estourou, o porquê daquelas músicas, avaliar a empolgação no palco", diz André Barcinski, 43, que escreve para a Folha.
Todos esses elementos ajudam a diminuir o peso do gosto pessoal, mas não o eliminam. Isenção total não existe. Quanto mais sincero o jornalista, mais ele deixa explícitas as suas idiossincrasias.
"Tem coisas altamente importantes na música pop para as quais a gente torce o nariz. Rock progressivo, por exemplo. Não dá pra desprezar um Genesis, Yes ou Emerson Lake and Palmer", diz o músico e produtor Kid Vinil, 56.
Marcelo Orozco, 44, editor da "Vip", usa como exemplo um jornalista fã do Sex Pistols, que será incapaz de elogiar um show de Dave Matthews Band. "O problema é avaliar um levando em conta os padrões do outro. Os leitores se sentem, com razão, aviltados."
O ideal é que o crítico tenha alguma afinidade com o que vai cobrir, mas não em demasia. Não deve se comportar como fã. "É o desapego que faz com que o cara diga certas verdades, que, se ele tiver uma relação emocional com o tema, vai omitir", assinala Pablo Miyazawa, 33, editor-chefe da "Rolling Stone".
O "desapego" permite ao resenhista ser implacável. No segundo Rock in Rio (1991), Luis Antônio Giron escrevia na Ilustrada que "Prince se deixou acompanhar por uma banda cujo som equivale a 80 Titãs bem-amestrados".
Desde então, muita coisa mudou. Prince e Titãs estão no ocaso e as pessoas não precisam mais da mídia tradicional para conhecer novos artistas: elas têm rádios na internet, sites de música, blogs, jornais especializados, YouTube, redes sociais.
Acabou-se o tempo em que privilegiados tinham acesso à produção estrangeira e traziam as novidades a Pindorama. Só que a quantidade de bandas novas é tamanha que os críticos de jornais e revistas servem de chancela. Eles são uma bússola no oceano pop. Não é o poder de outrora, mas ainda é uma tremenda responsabilidade.
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Suzana Singer é a ombudsman da Folha desde 24 de abril de 2010. O ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Não pode ser demitido durante o exercício da função e tem estabilidade por seis meses após deixá-la. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclamações, e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Documentário do Jazz
Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo", de 3/agosto/2011, caderno "Ilustrada"
O "jass", de A a ZZ
por Marcelo Coelho
A palavra "jass" teria origem no "jasmim", fragrância preferida das prostitutas de Nova Orleans
Está disponível nas bancas de jornal uma série de documentários sobre jazz, feita por Ken Burns, em 12 DVDs. Recomendo. Verdade que entendo pouquíssimo de jazz e por isso mesmo devo estar passando por cima daquele tipo de defeito que todo aficionado sabe apontar.
"Ah, esqueceram de Fulano, não deram importância à segunda fase de Beltrano no selo Verve..." etc. Também, o que fazer? Como em certa fase do cinema norte-americano, sempre que alguém é chamado de gênio, aparecem outros dez ou 20 nomes à sua volta mais geniais ainda. A mina de ouro parece nunca se esgotar.
Ou melhor, quem se esgota é o leigo no assunto, desconfiando de certo excesso de entusiasmo do interlocutor. No jazz, entretanto, isso pode ser mais verdade do que no cinema. Um músico termina estimulando o outro, e a possibilidade dos encontros e parcerias é obviamente maior do que entre diretores de cinema.
Comecei assistindo aos filmes sobre nomes e épocas que eu conhecia um pouco mais: Billie Holiday, Duke Ellington, os anos 30 e 40, como convém à minha caretice.
Uma surpresa foi ver as "big bands", do gênero Benny Goodman, terem para a época a mesma função que, décadas depois, seria exercida por Elvis Presley e Beatles.
O frenesi dos fãs e a agitação maluca dos salões de baile não têm nada em comum com a suavidade cheirando a brilhantina que pode ser associada a músicas tipo "Moonlight Serenade", de Glenn Miller.
Filmes de época, reproduzidos no documentário, mostram que muitos americanos, mesmo brancos, já sabiam chacoalhar-se bastante antes do rock. Em 1937, o desvairado baterista anão Chick Webb foi, segundo alguns dos entrevistados no documentário, o vencedor de um duelo histórico contra a banda rival de Benny Goodman.
Claro que as opiniões divergem.
Vendo as cenas daquele encontro, preservadas no DVD (sempre com ótima qualidade de imagem), a única coisa que se pode concluir é que estava em jogo, também, a resistência física dos participantes e dos ouvintes. A bateria de um e a clarineta do outro só faltaram explodir os pulmões, o coração e os músculos de todos, além das paredes do "dancing hall".
As fotos utilizadas no documentário — e Ken Burns é mestre em destacar detalhes significativos de cada imagem individual — são tão boas quanto os filmes históricos. Cada grande músico parece ter tido um grande fotógrafo ao seu lado.
Cometi o erro de deixar para depois o primeiro volume, dedicado aos anos 1890-1917. Parecia antigo demais; e ponha antigo nisso. É o tempo em que escreviam "jass", em vez de jazz. A palavra, segundo dizem, teria origem no "jasmim", fragrância preferida das prostitutas de Nova Orleans.
Até pelo que conta da cidade (meio brasileira, com uma população mestiça recusando suas origens africanas), esse capítulo inicial é indispensável. Vê-se o autointitulado "criador do jazz" Nick La Rocca, um descendente de italianos, negar qualquer influência dos negros naquele estilo musical.
Tensões raciais (e a sua superação gradativa) estão presentes, claro, o tempo todo no documentário. O caminho do humorismo popular, com um pé no grotesco e na visão estereotipada do negro, até a erudição quase impenetrável do "free jazz" se percorre em cinco ou seis décadas.
Talvez a erudição não seja questão deste ou daquele traço estilístico particular, mas de mero acúmulo quantitativo. O número das referências, daquilo que cada artista sabe ser do conhecimento de seu público, vai aumentando.
E cultura não é apenas "expressão" de um sentimento ou uma forma específica de linguagem. Não é também só "o que você sabe". Tudo dá um salto, na verdade, quando "você sabe que o outro sabe". Esse salto, que acompanha a liberação dos costumes e também a ascensão política e social dos negros, talvez seja a verdadeira história do jazz.
Assim parece, ao menos, quando se vê o documentário de Ken Burns — e se ouvem os comentários e exemplos musicais (infelizmente poucos) de um de seus entrevistados.
Pela simpatia, pela emoção e pela clareza dos comentários, Wynton Marsalis (trompetista de jazz e de música clássica ao mesmo tempo) vale, sozinho, o preço (R$ 19,90) de cada fascículo.
O "jass", de A a ZZ
por Marcelo Coelho
A palavra "jass" teria origem no "jasmim", fragrância preferida das prostitutas de Nova Orleans
Está disponível nas bancas de jornal uma série de documentários sobre jazz, feita por Ken Burns, em 12 DVDs. Recomendo. Verdade que entendo pouquíssimo de jazz e por isso mesmo devo estar passando por cima daquele tipo de defeito que todo aficionado sabe apontar.
"Ah, esqueceram de Fulano, não deram importância à segunda fase de Beltrano no selo Verve..." etc. Também, o que fazer? Como em certa fase do cinema norte-americano, sempre que alguém é chamado de gênio, aparecem outros dez ou 20 nomes à sua volta mais geniais ainda. A mina de ouro parece nunca se esgotar.
Ou melhor, quem se esgota é o leigo no assunto, desconfiando de certo excesso de entusiasmo do interlocutor. No jazz, entretanto, isso pode ser mais verdade do que no cinema. Um músico termina estimulando o outro, e a possibilidade dos encontros e parcerias é obviamente maior do que entre diretores de cinema.
Comecei assistindo aos filmes sobre nomes e épocas que eu conhecia um pouco mais: Billie Holiday, Duke Ellington, os anos 30 e 40, como convém à minha caretice.
Uma surpresa foi ver as "big bands", do gênero Benny Goodman, terem para a época a mesma função que, décadas depois, seria exercida por Elvis Presley e Beatles.
O frenesi dos fãs e a agitação maluca dos salões de baile não têm nada em comum com a suavidade cheirando a brilhantina que pode ser associada a músicas tipo "Moonlight Serenade", de Glenn Miller.
Filmes de época, reproduzidos no documentário, mostram que muitos americanos, mesmo brancos, já sabiam chacoalhar-se bastante antes do rock. Em 1937, o desvairado baterista anão Chick Webb foi, segundo alguns dos entrevistados no documentário, o vencedor de um duelo histórico contra a banda rival de Benny Goodman.
Claro que as opiniões divergem.
Vendo as cenas daquele encontro, preservadas no DVD (sempre com ótima qualidade de imagem), a única coisa que se pode concluir é que estava em jogo, também, a resistência física dos participantes e dos ouvintes. A bateria de um e a clarineta do outro só faltaram explodir os pulmões, o coração e os músculos de todos, além das paredes do "dancing hall".
As fotos utilizadas no documentário — e Ken Burns é mestre em destacar detalhes significativos de cada imagem individual — são tão boas quanto os filmes históricos. Cada grande músico parece ter tido um grande fotógrafo ao seu lado.
Cometi o erro de deixar para depois o primeiro volume, dedicado aos anos 1890-1917. Parecia antigo demais; e ponha antigo nisso. É o tempo em que escreviam "jass", em vez de jazz. A palavra, segundo dizem, teria origem no "jasmim", fragrância preferida das prostitutas de Nova Orleans.
Até pelo que conta da cidade (meio brasileira, com uma população mestiça recusando suas origens africanas), esse capítulo inicial é indispensável. Vê-se o autointitulado "criador do jazz" Nick La Rocca, um descendente de italianos, negar qualquer influência dos negros naquele estilo musical.
Tensões raciais (e a sua superação gradativa) estão presentes, claro, o tempo todo no documentário. O caminho do humorismo popular, com um pé no grotesco e na visão estereotipada do negro, até a erudição quase impenetrável do "free jazz" se percorre em cinco ou seis décadas.
Talvez a erudição não seja questão deste ou daquele traço estilístico particular, mas de mero acúmulo quantitativo. O número das referências, daquilo que cada artista sabe ser do conhecimento de seu público, vai aumentando.
E cultura não é apenas "expressão" de um sentimento ou uma forma específica de linguagem. Não é também só "o que você sabe". Tudo dá um salto, na verdade, quando "você sabe que o outro sabe". Esse salto, que acompanha a liberação dos costumes e também a ascensão política e social dos negros, talvez seja a verdadeira história do jazz.
Assim parece, ao menos, quando se vê o documentário de Ken Burns — e se ouvem os comentários e exemplos musicais (infelizmente poucos) de um de seus entrevistados.
Pela simpatia, pela emoção e pela clareza dos comentários, Wynton Marsalis (trompetista de jazz e de música clássica ao mesmo tempo) vale, sozinho, o preço (R$ 19,90) de cada fascículo.
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