Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo", de 3/agosto/2011, caderno "Ilustrada"
O "jass", de A a ZZ
por Marcelo Coelho
A palavra "jass" teria origem no "jasmim", fragrância preferida das prostitutas de Nova Orleans
Está disponível nas bancas de jornal uma série de documentários sobre jazz, feita por Ken Burns, em 12 DVDs. Recomendo. Verdade que entendo pouquíssimo de jazz e por isso mesmo devo estar passando por cima daquele tipo de defeito que todo aficionado sabe apontar.
"Ah, esqueceram de Fulano, não deram importância à segunda fase de Beltrano no selo Verve..." etc. Também, o que fazer? Como em certa fase do cinema norte-americano, sempre que alguém é chamado de gênio, aparecem outros dez ou 20 nomes à sua volta mais geniais ainda. A mina de ouro parece nunca se esgotar.
Ou melhor, quem se esgota é o leigo no assunto, desconfiando de certo excesso de entusiasmo do interlocutor. No jazz, entretanto, isso pode ser mais verdade do que no cinema. Um músico termina estimulando o outro, e a possibilidade dos encontros e parcerias é obviamente maior do que entre diretores de cinema.
Comecei assistindo aos filmes sobre nomes e épocas que eu conhecia um pouco mais: Billie Holiday, Duke Ellington, os anos 30 e 40, como convém à minha caretice.
Uma surpresa foi ver as "big bands", do gênero Benny Goodman, terem para a época a mesma função que, décadas depois, seria exercida por Elvis Presley e Beatles.
O frenesi dos fãs e a agitação maluca dos salões de baile não têm nada em comum com a suavidade cheirando a brilhantina que pode ser associada a músicas tipo "Moonlight Serenade", de Glenn Miller.
Filmes de época, reproduzidos no documentário, mostram que muitos americanos, mesmo brancos, já sabiam chacoalhar-se bastante antes do rock. Em 1937, o desvairado baterista anão Chick Webb foi, segundo alguns dos entrevistados no documentário, o vencedor de um duelo histórico contra a banda rival de Benny Goodman.
Claro que as opiniões divergem.
Vendo as cenas daquele encontro, preservadas no DVD (sempre com ótima qualidade de imagem), a única coisa que se pode concluir é que estava em jogo, também, a resistência física dos participantes e dos ouvintes. A bateria de um e a clarineta do outro só faltaram explodir os pulmões, o coração e os músculos de todos, além das paredes do "dancing hall".
As fotos utilizadas no documentário — e Ken Burns é mestre em destacar detalhes significativos de cada imagem individual — são tão boas quanto os filmes históricos. Cada grande músico parece ter tido um grande fotógrafo ao seu lado.
Cometi o erro de deixar para depois o primeiro volume, dedicado aos anos 1890-1917. Parecia antigo demais; e ponha antigo nisso. É o tempo em que escreviam "jass", em vez de jazz. A palavra, segundo dizem, teria origem no "jasmim", fragrância preferida das prostitutas de Nova Orleans.
Até pelo que conta da cidade (meio brasileira, com uma população mestiça recusando suas origens africanas), esse capítulo inicial é indispensável. Vê-se o autointitulado "criador do jazz" Nick La Rocca, um descendente de italianos, negar qualquer influência dos negros naquele estilo musical.
Tensões raciais (e a sua superação gradativa) estão presentes, claro, o tempo todo no documentário. O caminho do humorismo popular, com um pé no grotesco e na visão estereotipada do negro, até a erudição quase impenetrável do "free jazz" se percorre em cinco ou seis décadas.
Talvez a erudição não seja questão deste ou daquele traço estilístico particular, mas de mero acúmulo quantitativo. O número das referências, daquilo que cada artista sabe ser do conhecimento de seu público, vai aumentando.
E cultura não é apenas "expressão" de um sentimento ou uma forma específica de linguagem. Não é também só "o que você sabe". Tudo dá um salto, na verdade, quando "você sabe que o outro sabe". Esse salto, que acompanha a liberação dos costumes e também a ascensão política e social dos negros, talvez seja a verdadeira história do jazz.
Assim parece, ao menos, quando se vê o documentário de Ken Burns — e se ouvem os comentários e exemplos musicais (infelizmente poucos) de um de seus entrevistados.
Pela simpatia, pela emoção e pela clareza dos comentários, Wynton Marsalis (trompetista de jazz e de música clássica ao mesmo tempo) vale, sozinho, o preço (R$ 19,90) de cada fascículo.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
sábado, 25 de junho de 2011
Hoje, a memória musical vai até a esquina
Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo", de 25/junho/2011, caderno "Opinião"
De todos os tempos
por Ruy Castro
RIO DE JANEIRO - O site da revista britânica "NME" -"New Musical Express"- perguntou a seus leitores quais eram os "20 maiores cantores de todos os tempos". Dez milhões de pessoas responderam. Deu Michael Jackson na cabeça, seguido por Freddie Mercury, Axl Rose, John Lennon, David Bowie, Robert Plant, Paul McCartney etc. Dos 20, os únicos "antigos" são Ray Charles e Elvis Presley. Todos os outros são pós-1960.
Pelo visto, a música popular não existia até então. Frank Sinatra, por exemplo, de 1939 a 1982 — para quem acha isso importante — ganhou 31 discos de ouro, nove de platina, três de platina dupla, um de platina tripla e dez Grammys. Sua voz foi trilha sonora para mais beijos que a de qualquer cantor no século 20. E nenhum outro foi tão respeitado por músicos e musicólogos. Mas, para os leitores da "NME", ele não existiu.
Bing Crosby, muito menos. Ainda para quem gosta desses números, de 1927 a 1962 o campeoníssimo Bing emplacou 396 gravações nas paradas americanas; Sinatra, 209; Elvis, 149; os Beatles, 68; e nenhum outro roqueiro chegou sequer perto. Dessas, Bing pôs 38 no 1º lugar; os Beatles, 24; Elvis, 18. E calcula-se que, somente até 1980, Bing tenha vendido 400 milhões de discos. Mas, para os leitores da "NME", ele também não existiu.
Assim como não existiram Al Jolson, Louis Armstrong, Bessie Smith, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Judy Garland, Nat "King" Cole, Billy Eckstine, Mel Tormé, Peggy Lee, Doris Day, Sarah Vaughan, Tony Bennett e muitos mais, que construíram a canção americana. Cantores de outras línguas, como Carlos Gardel, Charles Trenet, Orlando Silva, Edith Piaf, Amália Rodrigues, João Gilberto, nem pensar.
A noção de "todos os tempos" dos leitores da "NME" é deliciosamente curta — vai só até a esquina. Além desta, há apenas uma caverna escura e sem fim.
De todos os tempos
por Ruy Castro
RIO DE JANEIRO - O site da revista britânica "NME" -"New Musical Express"- perguntou a seus leitores quais eram os "20 maiores cantores de todos os tempos". Dez milhões de pessoas responderam. Deu Michael Jackson na cabeça, seguido por Freddie Mercury, Axl Rose, John Lennon, David Bowie, Robert Plant, Paul McCartney etc. Dos 20, os únicos "antigos" são Ray Charles e Elvis Presley. Todos os outros são pós-1960.
Pelo visto, a música popular não existia até então. Frank Sinatra, por exemplo, de 1939 a 1982 — para quem acha isso importante — ganhou 31 discos de ouro, nove de platina, três de platina dupla, um de platina tripla e dez Grammys. Sua voz foi trilha sonora para mais beijos que a de qualquer cantor no século 20. E nenhum outro foi tão respeitado por músicos e musicólogos. Mas, para os leitores da "NME", ele não existiu.
Bing Crosby, muito menos. Ainda para quem gosta desses números, de 1927 a 1962 o campeoníssimo Bing emplacou 396 gravações nas paradas americanas; Sinatra, 209; Elvis, 149; os Beatles, 68; e nenhum outro roqueiro chegou sequer perto. Dessas, Bing pôs 38 no 1º lugar; os Beatles, 24; Elvis, 18. E calcula-se que, somente até 1980, Bing tenha vendido 400 milhões de discos. Mas, para os leitores da "NME", ele também não existiu.
Assim como não existiram Al Jolson, Louis Armstrong, Bessie Smith, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Judy Garland, Nat "King" Cole, Billy Eckstine, Mel Tormé, Peggy Lee, Doris Day, Sarah Vaughan, Tony Bennett e muitos mais, que construíram a canção americana. Cantores de outras línguas, como Carlos Gardel, Charles Trenet, Orlando Silva, Edith Piaf, Amália Rodrigues, João Gilberto, nem pensar.
A noção de "todos os tempos" dos leitores da "NME" é deliciosamente curta — vai só até a esquina. Além desta, há apenas uma caverna escura e sem fim.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
De olho no passado...
Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo" de 9/maio/2011, caderno "Ilustrada"
As novas cantoras antigas
por Thales de Meneses, de São Paulo
Garotas ganham hoje topo das paradas de sucesso bebendo na fonte de intérpretes dos anos 1950 e 1960
A top model inglesa Karen Elson, que se casou com o guitarrista Jack White (White Stripes), resolveu cantar. Afinada com os tempos modernos, passou a integrar o time das novas cantoras que buscam inspiração no passado.
"The Ghost Who Walks", seu primeiro e até agora único álbum, acaba de sair no Brasil pelo selo Lab 344. Trata-se de um disco belíssimo, de canções pop encharcadas de tristeza. Uma curiosidade: poderia ter sido gravado e lançado em, digamos, 1959.
Ter algum conhecimento sobre nomes de sucesso na história das intérpretes brancas de música popular americana e britânica tornam impossível ouvir o trabalho da moça sem pensar nas divas que encantavam multidões nas décadas de 1950 e 1960.
A comparação pode levar, por exemplo, a Julie London. Apesar do nome, foi uma lindíssima atriz e cantora americana de standards (temas de jazz que se tornaram conhecidos a ponto de ocupar as paradas de música popular).
Outra referência clara no disco de Karen Elson é Rosemary Clooney, mas ela não está sozinha na predileção.
Zooey Deschanel, mais famosa no Brasil como a atriz gracinha do filme "500 Dias com Ela", é vocalista do duo She & Him. Ela declarou que Rosemary Clooney é sua cantora favorita. Os dois álbuns já lançados pela dupla de Zooey também lembram as músicas gravadas pela tia-avó do ator George Clooney.
Amy Winehouse bebe na fonte de cantoras do chamado blue-eyed soul (astros brancos ingleses dedicados ao gênero nos anos 1960), como Dusty Springfield e Petula Clark. Mas adora cantar em seus shows o maior sucesso de Rosemary, "Tenderly".
Duffy, a loirinha galesa com voz de patinha que surgiu como uma possível versão comportada de Amy, é outra a construir seu som com ecos do passado.
Bernard Butler, ex-guitarrista do britpop Suede e produtor da moça, liberou para ela uma coleção de compactos de cantoras como Nancy Sinatra, Lulu e Sandie Shaw. Os álbuns de Duffy dão recibo da apropriação sonora.
Para completar um time de novas cantoras "antigas" só falta a que hoje se mostra a mais bem-sucedida delas: Adele. A inglesa fofa de 21 anos conseguiu rapidamente o que todas as suas conterrâneas querem: ganhar as paradas americanas.
Capa de uma recente edição da "Rolling Stone", praticamente um atestado de aceitação nos Estados Unidos, ela consegue equilibrar temas melancólicos, de paixões arrebatadoras e mal resolvidas, com hits animados. A crítica que a compara a Peggy Lee acerta em cheio.
As mocinhas deste século têm competência. Mas, em tempos de discos de qualquer época numa amazon.com, vale ouvir as originais.
As novas cantoras antigas
por Thales de Meneses, de São Paulo
Garotas ganham hoje topo das paradas de sucesso bebendo na fonte de intérpretes dos anos 1950 e 1960
A top model inglesa Karen Elson, que se casou com o guitarrista Jack White (White Stripes), resolveu cantar. Afinada com os tempos modernos, passou a integrar o time das novas cantoras que buscam inspiração no passado.
"The Ghost Who Walks", seu primeiro e até agora único álbum, acaba de sair no Brasil pelo selo Lab 344. Trata-se de um disco belíssimo, de canções pop encharcadas de tristeza. Uma curiosidade: poderia ter sido gravado e lançado em, digamos, 1959.
Ter algum conhecimento sobre nomes de sucesso na história das intérpretes brancas de música popular americana e britânica tornam impossível ouvir o trabalho da moça sem pensar nas divas que encantavam multidões nas décadas de 1950 e 1960.
A comparação pode levar, por exemplo, a Julie London. Apesar do nome, foi uma lindíssima atriz e cantora americana de standards (temas de jazz que se tornaram conhecidos a ponto de ocupar as paradas de música popular).
Outra referência clara no disco de Karen Elson é Rosemary Clooney, mas ela não está sozinha na predileção.
Zooey Deschanel, mais famosa no Brasil como a atriz gracinha do filme "500 Dias com Ela", é vocalista do duo She & Him. Ela declarou que Rosemary Clooney é sua cantora favorita. Os dois álbuns já lançados pela dupla de Zooey também lembram as músicas gravadas pela tia-avó do ator George Clooney.
Amy Winehouse bebe na fonte de cantoras do chamado blue-eyed soul (astros brancos ingleses dedicados ao gênero nos anos 1960), como Dusty Springfield e Petula Clark. Mas adora cantar em seus shows o maior sucesso de Rosemary, "Tenderly".
Duffy, a loirinha galesa com voz de patinha que surgiu como uma possível versão comportada de Amy, é outra a construir seu som com ecos do passado.
Bernard Butler, ex-guitarrista do britpop Suede e produtor da moça, liberou para ela uma coleção de compactos de cantoras como Nancy Sinatra, Lulu e Sandie Shaw. Os álbuns de Duffy dão recibo da apropriação sonora.
Para completar um time de novas cantoras "antigas" só falta a que hoje se mostra a mais bem-sucedida delas: Adele. A inglesa fofa de 21 anos conseguiu rapidamente o que todas as suas conterrâneas querem: ganhar as paradas americanas.
Capa de uma recente edição da "Rolling Stone", praticamente um atestado de aceitação nos Estados Unidos, ela consegue equilibrar temas melancólicos, de paixões arrebatadoras e mal resolvidas, com hits animados. A crítica que a compara a Peggy Lee acerta em cheio.
As mocinhas deste século têm competência. Mas, em tempos de discos de qualquer época numa amazon.com, vale ouvir as originais.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Raízes revigoradas
Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo" de 29/abril/2011, caderno "Ilustrada"
Soul se volta às raízes e ganha paradas
por Adriana Ferreira Silva, editora do "Guia Folha"
Após retomada nos anos 90, estilo busca referência em sua época de ouro e disputa supremacia na indústria com o rap e o rock
Em formato atualizado ou no estilo retrô, gênero volta em peso e consagra nomes como Adele e James Blake
Amy Winehouse, 27, mais de 10 milhões de álbuns vendidos na era do download. Adele, 21, há 12 semanas se mantém no primeiro lugar das paradas britânicas. James Blake, 22, estreou em disco em fevereiro deste ano com elogios em sites e revistas do mundo todo.
Em comum, além de os três jovens cantores terem nascido no Reino Unido, está a soul music. O estilo, cuja época de ouro ocorreu no fim dos anos 1960, início dos 70, disputa com o pop rock e o hip-hop a supremacia da indústria musical. Com a vantagem de que os trabalhos mais criativos dos últimos anos têm referências, influências soul ou são pura e simplesmente retrô.
E esse não é um fenômeno exclusivamente britânico. Em seu país de origem, o soul embala os hits cafajestes de Cee Lo Green, ganha versão "funky" na voz de Janelle Monáe e faz sucesso em seu formato clássico com Sharon Jones and The Dap-Kings.
O hip-hop foi o responsável pelo "revival" do gênero, nos anos 90, com estrelas como Lauryn Hill, Erykah Badu e Alicia Keys, rimando no balanço dessa mistura de gospel e R&B, numa onda conhecida como "neo soul".
"Estamos agora numa fase retrô", afirma o cantor e produtor Simoninha, pesquisador do estilo. "A graça é gravar com equipamentos analógicos e lançar discos em vinil. É uma tendência se desprender das ferramentas digitais para criar ambientações de décadas passadas."
Para o produtor Pedro Albuquerque, curador do BMW Jazz Festival, que acontece em junho em São Paulo, esse retorno às raízes se personifica na figura do instrumentista americano Gabriel Roth, da banda The Dap-Kings.
Roth colaborou para o sucesso de Amy Winehouse, tocando e atuando como engenheiro de som no CD "Back to Black", lançou Sharon Jones e mantém uma gravadora, a Daptone, na qual os sintetizadores são "proibidos". "Tudo o que tocamos vem de instrumentos analógicos, e as gravações são feitas em rolos, como antigamente", explica Roth.
O rótulo, no entanto, incomoda a ele e a sua principal artista: "Não tenho nada de retrô", afirma Jones. "Minhas influências são daquela época, mas não parei no tempo."
Independentemente das etiquetas de "neo" ou retrô, as novas gerações trouxeram o estilo de volta às prateleiras. "Muita gente voltou a ouvir Otis Redding, e a procura por discos de Amy Winehouse se mantém grande", afirma Albuquerque, que também é consultor de acervo da Livraria da Travessa, no Rio. Lá, ele aposta numa seção dedicada ao soul, que, assim como em outros lugares, volta agora a ser pop.
Soul se volta às raízes e ganha paradas
por Adriana Ferreira Silva, editora do "Guia Folha"
Após retomada nos anos 90, estilo busca referência em sua época de ouro e disputa supremacia na indústria com o rap e o rock
Em formato atualizado ou no estilo retrô, gênero volta em peso e consagra nomes como Adele e James Blake
Amy Winehouse, 27, mais de 10 milhões de álbuns vendidos na era do download. Adele, 21, há 12 semanas se mantém no primeiro lugar das paradas britânicas. James Blake, 22, estreou em disco em fevereiro deste ano com elogios em sites e revistas do mundo todo.
Em comum, além de os três jovens cantores terem nascido no Reino Unido, está a soul music. O estilo, cuja época de ouro ocorreu no fim dos anos 1960, início dos 70, disputa com o pop rock e o hip-hop a supremacia da indústria musical. Com a vantagem de que os trabalhos mais criativos dos últimos anos têm referências, influências soul ou são pura e simplesmente retrô.
E esse não é um fenômeno exclusivamente britânico. Em seu país de origem, o soul embala os hits cafajestes de Cee Lo Green, ganha versão "funky" na voz de Janelle Monáe e faz sucesso em seu formato clássico com Sharon Jones and The Dap-Kings.
O hip-hop foi o responsável pelo "revival" do gênero, nos anos 90, com estrelas como Lauryn Hill, Erykah Badu e Alicia Keys, rimando no balanço dessa mistura de gospel e R&B, numa onda conhecida como "neo soul".
"Estamos agora numa fase retrô", afirma o cantor e produtor Simoninha, pesquisador do estilo. "A graça é gravar com equipamentos analógicos e lançar discos em vinil. É uma tendência se desprender das ferramentas digitais para criar ambientações de décadas passadas."
Para o produtor Pedro Albuquerque, curador do BMW Jazz Festival, que acontece em junho em São Paulo, esse retorno às raízes se personifica na figura do instrumentista americano Gabriel Roth, da banda The Dap-Kings.
Roth colaborou para o sucesso de Amy Winehouse, tocando e atuando como engenheiro de som no CD "Back to Black", lançou Sharon Jones e mantém uma gravadora, a Daptone, na qual os sintetizadores são "proibidos". "Tudo o que tocamos vem de instrumentos analógicos, e as gravações são feitas em rolos, como antigamente", explica Roth.
O rótulo, no entanto, incomoda a ele e a sua principal artista: "Não tenho nada de retrô", afirma Jones. "Minhas influências são daquela época, mas não parei no tempo."
Independentemente das etiquetas de "neo" ou retrô, as novas gerações trouxeram o estilo de volta às prateleiras. "Muita gente voltou a ouvir Otis Redding, e a procura por discos de Amy Winehouse se mantém grande", afirma Albuquerque, que também é consultor de acervo da Livraria da Travessa, no Rio. Lá, ele aposta numa seção dedicada ao soul, que, assim como em outros lugares, volta agora a ser pop.
domingo, 13 de março de 2011
Engenheiro vende...
Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo", de 13/março/2011, revista "sãopaulo"
PERFIL
O homem com mais de 1 milhão de discos
por Ronaldo Evangelista
Jorge Dias tem hoje um dos maiores acervos de vinis do Brasil, guardado na Mooca; engenheiro ajudou a implodir o Palace 2 e o Carandiru
Passando pelas ruas da Mooca , do Oratório ou dos Trilhos, é impossível não notar: os móveis, quadros, objetos e antiguidades ocupam todos os espaços, cobrindo portas e formando corredores. Os discos de vinil lotam estantes do chão ao teto com enorme pé-direito, e um casarão ostenta faixas de "Família vende tudo todos os dias".
São os quatro endereços da loja Presentes do Passado, também já conhecida como Sebo Jovem Guarda, cenário e memória viva da Mooca.
Por dentro, é ainda mais impressionante a variedade de coisas, em quantidade difícil de ser totalmente compreendida: máscaras africanas, órgãos analógicos, filmadoras, esculturas, revistas, lustres, pinturas, garrafas, muitos móveis, muitos quadros, muitos livros e muitos, muitos discos, além do simpático cão Delegado Billy e de sua namorada, Belinha, e do responsável por tudo, Manoel Jorge Diniz Dias, 55.
Até dois anos atrás, tudo não passava de hobby. Jorge — ou Manezinho da Implosão, como era conhecido — foi o engenheiro técnico responsável por "praticamente todas as implosões que você viu na televisão".
Entre os mais de 80 prédios e 200 pontes que trouxe abaixo, cinco pavilhões do Carandiru, o prédio da Cesp na avenida Paulista e a mais difícil e famosa implosão do Brasil: a do edifício Palace 2, em 1998. Em sua carreira de destruidor, dava até autógrafos.
Parafusos
Em 2000, com o mesmo impulso que o fazia visitar fábricas na infância para conseguir parafusos e revender em oficinas mecânicas, Jorge comprou, em um leilão, todo um lote de produtos da Avon, de calcinhas a CDs.
Montou ponto perto de casa, na rua do Oratório, e seguiram-se trocas e compras de livros. Em pouco tempo vieram telas e objetos e, finalmente, vinis. Hoje, Jorge é dono de um dos maiores acervos de discos do país, com mais de 1 milhão de itens.
"Quando garoto, colecionava chaveiros, caixas de fósforo, embalagens de cigarro", lembra. "Coleção tem um poder de sedução muito grande e só vai ganhando valor com o tempo."
Foi a paixão pelo colecionismo somada à experiência de reciclagem. "A demolição está sempre associada ao reaproveitamento. Você aproveita cada material", diz Jorge.
Caminhões de bolachas
Em 2003, Jorge encontrou um lojista interessado em vender um grande lote de vinis para comprar um imóvel. Com ele, era o inverso. "A gente se cruzou e comprei 200 mil discos de uma vez só", conta. "Tive que levar tudo em dinheiro e, toda noite, durante uma semana, carreguei caminhões e caminhões de discos de vinil."
Hoje, ele vem diminuindo o trabalho com as implosões e aumentando o tempo que dedica aos discos e às antiguidades, que já geram lucro.
Além de pagar seis aluguéis mensais para manter tudo estocado (um dos quatro galpões é composto por três imóveis conjugados), contratou uma equipe de nove pessoas, que passa os dias colocando todo tipo de coisa em sites de leilão na internet, como Mercado Livre e eBay.
Chegou a mil itens cadastrados por dia e já tem catalogados 290 mil. A meta é atingir meio milhão. Hoje, ele vende, em média, 40 objetos por dia.
Os números são tão altos que Jorge vislumbra a chance de criar um centro cultural. "Qualquer museu que a gente monte com esse acervo será maior que o de qualquer entidade", diz. "Penso em criar um polo cultural ou armar uma parceria, por exemplo, com o Instituto Moreira Salles. Mas ainda estamos avaliando tudo."
Curiosamente, Jorge não tem uma relação especial com a música. "Gosto mesmo é de olhar as capas", confessa, com sorriso de criança que completou a coleção.
SERVIÇO
Os 4 endereços da loja Presentes do Passado na Mooca R. dos Trilhos, 1.212; r. da Mooca, 3.401; r. da Mooca, 2.631; r. do Oratório, 838; tel. 2606-0127.
PERFIL
O homem com mais de 1 milhão de discos
por Ronaldo Evangelista
Jorge Dias tem hoje um dos maiores acervos de vinis do Brasil, guardado na Mooca; engenheiro ajudou a implodir o Palace 2 e o Carandiru
Passando pelas ruas da Mooca , do Oratório ou dos Trilhos, é impossível não notar: os móveis, quadros, objetos e antiguidades ocupam todos os espaços, cobrindo portas e formando corredores. Os discos de vinil lotam estantes do chão ao teto com enorme pé-direito, e um casarão ostenta faixas de "Família vende tudo todos os dias".
São os quatro endereços da loja Presentes do Passado, também já conhecida como Sebo Jovem Guarda, cenário e memória viva da Mooca.
Por dentro, é ainda mais impressionante a variedade de coisas, em quantidade difícil de ser totalmente compreendida: máscaras africanas, órgãos analógicos, filmadoras, esculturas, revistas, lustres, pinturas, garrafas, muitos móveis, muitos quadros, muitos livros e muitos, muitos discos, além do simpático cão Delegado Billy e de sua namorada, Belinha, e do responsável por tudo, Manoel Jorge Diniz Dias, 55.
Até dois anos atrás, tudo não passava de hobby. Jorge — ou Manezinho da Implosão, como era conhecido — foi o engenheiro técnico responsável por "praticamente todas as implosões que você viu na televisão".
Entre os mais de 80 prédios e 200 pontes que trouxe abaixo, cinco pavilhões do Carandiru, o prédio da Cesp na avenida Paulista e a mais difícil e famosa implosão do Brasil: a do edifício Palace 2, em 1998. Em sua carreira de destruidor, dava até autógrafos.
Parafusos
Em 2000, com o mesmo impulso que o fazia visitar fábricas na infância para conseguir parafusos e revender em oficinas mecânicas, Jorge comprou, em um leilão, todo um lote de produtos da Avon, de calcinhas a CDs.
Montou ponto perto de casa, na rua do Oratório, e seguiram-se trocas e compras de livros. Em pouco tempo vieram telas e objetos e, finalmente, vinis. Hoje, Jorge é dono de um dos maiores acervos de discos do país, com mais de 1 milhão de itens.
"Quando garoto, colecionava chaveiros, caixas de fósforo, embalagens de cigarro", lembra. "Coleção tem um poder de sedução muito grande e só vai ganhando valor com o tempo."
Foi a paixão pelo colecionismo somada à experiência de reciclagem. "A demolição está sempre associada ao reaproveitamento. Você aproveita cada material", diz Jorge.
Caminhões de bolachas
Em 2003, Jorge encontrou um lojista interessado em vender um grande lote de vinis para comprar um imóvel. Com ele, era o inverso. "A gente se cruzou e comprei 200 mil discos de uma vez só", conta. "Tive que levar tudo em dinheiro e, toda noite, durante uma semana, carreguei caminhões e caminhões de discos de vinil."
Hoje, ele vem diminuindo o trabalho com as implosões e aumentando o tempo que dedica aos discos e às antiguidades, que já geram lucro.
Além de pagar seis aluguéis mensais para manter tudo estocado (um dos quatro galpões é composto por três imóveis conjugados), contratou uma equipe de nove pessoas, que passa os dias colocando todo tipo de coisa em sites de leilão na internet, como Mercado Livre e eBay.
Chegou a mil itens cadastrados por dia e já tem catalogados 290 mil. A meta é atingir meio milhão. Hoje, ele vende, em média, 40 objetos por dia.
Os números são tão altos que Jorge vislumbra a chance de criar um centro cultural. "Qualquer museu que a gente monte com esse acervo será maior que o de qualquer entidade", diz. "Penso em criar um polo cultural ou armar uma parceria, por exemplo, com o Instituto Moreira Salles. Mas ainda estamos avaliando tudo."
Curiosamente, Jorge não tem uma relação especial com a música. "Gosto mesmo é de olhar as capas", confessa, com sorriso de criança que completou a coleção.
SERVIÇO
Os 4 endereços da loja Presentes do Passado na Mooca R. dos Trilhos, 1.212; r. da Mooca, 3.401; r. da Mooca, 2.631; r. do Oratório, 838; tel. 2606-0127.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Taiguara, Vinicius...
Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo" de 17 de fevereiro de 2011, no caderno Cotidiano
"Que as crianças cantem livres!"
por Pasquale Cipro Neto
Os muros a que se refere Taiguara são sobretudo os metafóricos muros que separam as trevas da luz
A ANTOLÓGICA "Elegia na Morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes", de Vinicius de Moraes, começa assim: "A morte chegou pelo interurbano (...). Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva. De repente, não tinha pai. No escuro de minha casa em Los Angeles...".
O diplomata Vinicius de Moraes servia nos Estados Unidos quando seu pai morreu. Se você não conhece essa "Elegia", trate de conhecer. Basta entrar no belíssimo site de Vinicius e ler. E chorar. Chorar muito. Nas artes, Vinicius é um dos meus tantos "pais". Sinto-me "órfão" dele, assim como me sinto órfão de Drummond e de outros tantos.
Na música popular, também tenho os meus "pais", muitos dos quais os leitores conhecem bem. Mas um deles talvez eu tenha citado poucas vezes ao longo dos anos. Refiro-me a Taiguara, que morreu em 14 de fevereiro de 1996, ou seja, há quinze anos. Eu estava em Portugal e, como Vinicius, recebi a notícia fúnebre pelo telefone. Imediatamente me senti, mais uma vez, "órfão" de um poeta sensível e refinado.
Na hora, lembrei-me de uma conversa com um querido amigo dos tempos de colégio, o hoje jornalista Delamar da Cruz, sobre uma cena que presenciamos em nossa adolescência. Em plena Copa de 70, com a ditadura e a lavagem cerebral a mil, a multidão se reunia nas ruas, na praça da Sé ou em frente ao teatro Municipal, para ouvir os jogos. Já havia TV direta, mas não havia telões. Nas ruas, o negócio era mesmo o rádio. Enquanto o jogo não começava, música. E Taiguara, dizendo em sua antológica "Hoje": "Hoje / As minhas mãos enfraquecidas e vazias / Procuram nuas pelas luas, pelas ruas... / Na solidão das noites frias por você (...) Hoje / Homens de aço esperam da ciência / Eu desespero e abraço a tua ausência / Que é o que me resta vivo em minha sorte".
Imagine o contraste entre o frenesi do povo e o sentido da letra de Taiguara... O caro leitor notou como o poeta trabalha o par verbal "esperam/desespero"? Por favor, leia "desespéro" (é verbo). Notou que, em "eu desespero", Taiguara emprega o verbo com o sentido de "perder a esperança"? Na letra, esse verbo pode ser tomado como transitivo indireto, com objeto indireto subentendido ("eu desespero da ciência") ou simplesmente como intransitivo ("eu desespero", com o sentido seco de "perco a esperança").
Taiguara era nobreza pura. Em outra obra-prima, "Maria do Futuro", diz ele: "Nessa rede ela prendeu / Minha dor civil, minha solidão. / Nessa rede eu vi nascer minha liberdade (...) E em cadeias de amor puro / viver guardado / Joga areias do futuro no meu passado". Maravilha! Que beleza a aparente antítese "rede/liberdade"! Que bela noção de liberdade cria o jogo rede/cadeias/areias (do futuro no meu passado)! Bem, para muita gente não é tão fácil assim captar o que é a verdadeira liberdade, sobretudo quando ela vem por imagens poéticas...
Encerro esta lembrança de Taiguara com versos de uma de suas antológicas canções, cujo nome é o título desta coluna: "Vê como um fogo brando funde um ferro duro / Vê como o asfalto é teu jardim se você crê / Que há um sol nascente avermelhando o céu escuro / Chamando os homens pro seu tempo de viver / E que as crianças cantem livres sobre os muros / E ensinem sonho ao que não pôde amar sem dor...".
Os muros a que se refere Taiguara são muitos, mas são sobretudo os metafóricos muros das barreiras que separam as trevas da luz, a mediocridade da criatividade, a teimosia da abertura mental e psíquica, separam a inércia do movimento para a frente, para o novo, para a revisão do velho conceito. Onde estiver, um beijo, caro Taiguara. É isso.
"Que as crianças cantem livres!"
por Pasquale Cipro Neto
Os muros a que se refere Taiguara são sobretudo os metafóricos muros que separam as trevas da luz
A ANTOLÓGICA "Elegia na Morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes", de Vinicius de Moraes, começa assim: "A morte chegou pelo interurbano (...). Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva. De repente, não tinha pai. No escuro de minha casa em Los Angeles...".
O diplomata Vinicius de Moraes servia nos Estados Unidos quando seu pai morreu. Se você não conhece essa "Elegia", trate de conhecer. Basta entrar no belíssimo site de Vinicius e ler. E chorar. Chorar muito. Nas artes, Vinicius é um dos meus tantos "pais". Sinto-me "órfão" dele, assim como me sinto órfão de Drummond e de outros tantos.
Na música popular, também tenho os meus "pais", muitos dos quais os leitores conhecem bem. Mas um deles talvez eu tenha citado poucas vezes ao longo dos anos. Refiro-me a Taiguara, que morreu em 14 de fevereiro de 1996, ou seja, há quinze anos. Eu estava em Portugal e, como Vinicius, recebi a notícia fúnebre pelo telefone. Imediatamente me senti, mais uma vez, "órfão" de um poeta sensível e refinado.
Na hora, lembrei-me de uma conversa com um querido amigo dos tempos de colégio, o hoje jornalista Delamar da Cruz, sobre uma cena que presenciamos em nossa adolescência. Em plena Copa de 70, com a ditadura e a lavagem cerebral a mil, a multidão se reunia nas ruas, na praça da Sé ou em frente ao teatro Municipal, para ouvir os jogos. Já havia TV direta, mas não havia telões. Nas ruas, o negócio era mesmo o rádio. Enquanto o jogo não começava, música. E Taiguara, dizendo em sua antológica "Hoje": "Hoje / As minhas mãos enfraquecidas e vazias / Procuram nuas pelas luas, pelas ruas... / Na solidão das noites frias por você (...) Hoje / Homens de aço esperam da ciência / Eu desespero e abraço a tua ausência / Que é o que me resta vivo em minha sorte".
Imagine o contraste entre o frenesi do povo e o sentido da letra de Taiguara... O caro leitor notou como o poeta trabalha o par verbal "esperam/desespero"? Por favor, leia "desespéro" (é verbo). Notou que, em "eu desespero", Taiguara emprega o verbo com o sentido de "perder a esperança"? Na letra, esse verbo pode ser tomado como transitivo indireto, com objeto indireto subentendido ("eu desespero da ciência") ou simplesmente como intransitivo ("eu desespero", com o sentido seco de "perco a esperança").
Taiguara era nobreza pura. Em outra obra-prima, "Maria do Futuro", diz ele: "Nessa rede ela prendeu / Minha dor civil, minha solidão. / Nessa rede eu vi nascer minha liberdade (...) E em cadeias de amor puro / viver guardado / Joga areias do futuro no meu passado". Maravilha! Que beleza a aparente antítese "rede/liberdade"! Que bela noção de liberdade cria o jogo rede/cadeias/areias (do futuro no meu passado)! Bem, para muita gente não é tão fácil assim captar o que é a verdadeira liberdade, sobretudo quando ela vem por imagens poéticas...
Encerro esta lembrança de Taiguara com versos de uma de suas antológicas canções, cujo nome é o título desta coluna: "Vê como um fogo brando funde um ferro duro / Vê como o asfalto é teu jardim se você crê / Que há um sol nascente avermelhando o céu escuro / Chamando os homens pro seu tempo de viver / E que as crianças cantem livres sobre os muros / E ensinem sonho ao que não pôde amar sem dor...".
Os muros a que se refere Taiguara são muitos, mas são sobretudo os metafóricos muros das barreiras que separam as trevas da luz, a mediocridade da criatividade, a teimosia da abertura mental e psíquica, separam a inércia do movimento para a frente, para o novo, para a revisão do velho conceito. Onde estiver, um beijo, caro Taiguara. É isso.
sábado, 22 de janeiro de 2011
Perdoem nossa falta de memória...
Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo" de 22/janeiro/2011 , no caderno "Opinião"
País esnobe
por Ruy Castro
RIO DE JANEIRO - Em 2011 teremos o centenário de muita gente boa da música brasileira -compositores e letristas a quem devemos tanta beleza e alegria na área do samba, do Carnaval, da valsa, do samba-canção, até do fox. Tais efemérides deveriam se estender pelo ano todo, com shows sobre eles por cantores novos e velhos, debates entre especialistas, lançamento e relançamento de seus discos e, quem sabe, biografias e documentários.
Mas, como aconteceu com Noel Rosa e outros que fizeram cem anos em 2010, esses artistas só serão lembrados no próprio dia do aniversário e, mesmo assim, por iniciativa de fãs devotados. Eis alguns.
A 1º de fevereiro, será o dia de Pedro Caetano, autor das obras-primas do samba "Foi uma Pedra que Rolou", "Onde Estão os Tamborins?" e "É Com Esse Que Eu Vou", e co-autor de "Caprichos do Destino", "Sandália de Prata", "A Dama de Vermelho", "Eu Brinco", "A Felicidade Perdeu seu Endereço". No dia 7, será a vez de José Maria de Abreu, cuja obra vai de valsas como "Boa Noite, Amor" à modernidade de "Alguém Como Tu" e à irresistível euforia de "Pegando Fogo".
Em março, teremos os cem anos de dois favoritos de Carmen Miranda: no dia 14, o de Synval Sylva ("Adeus, Batucada", "Ao Voltar do Samba", "Coração", "Gente Bamba"); no dia 19, o de Assis Valente ("Minha Embaixada Chegou", "E Bateu-se a Chapa", "Uva de Caminhão", "Recenseamento", "E o Mundo Não se Acabou", muitas mais). E, a 23 de maio, será a vez do letrista Mario Rossi, parceiro de Roberto Martins no samba "Beija-me" e no fox "Renúncia", e de Marino Pinto no bolero (sim!) "Que Será?" ("Da luz difusa do abajur lilás/ Se nunca mais vier a iluminar/ Outras noites iguais...").
Isto apenas entre os aniversariantes que serão esnobados no 1º. semestre. Mas, até o fim do ano, o Brasil promete superar-se e esnobar Nelson Cavaquinho.
País esnobe
por Ruy Castro
RIO DE JANEIRO - Em 2011 teremos o centenário de muita gente boa da música brasileira -compositores e letristas a quem devemos tanta beleza e alegria na área do samba, do Carnaval, da valsa, do samba-canção, até do fox. Tais efemérides deveriam se estender pelo ano todo, com shows sobre eles por cantores novos e velhos, debates entre especialistas, lançamento e relançamento de seus discos e, quem sabe, biografias e documentários.
Mas, como aconteceu com Noel Rosa e outros que fizeram cem anos em 2010, esses artistas só serão lembrados no próprio dia do aniversário e, mesmo assim, por iniciativa de fãs devotados. Eis alguns.
A 1º de fevereiro, será o dia de Pedro Caetano, autor das obras-primas do samba "Foi uma Pedra que Rolou", "Onde Estão os Tamborins?" e "É Com Esse Que Eu Vou", e co-autor de "Caprichos do Destino", "Sandália de Prata", "A Dama de Vermelho", "Eu Brinco", "A Felicidade Perdeu seu Endereço". No dia 7, será a vez de José Maria de Abreu, cuja obra vai de valsas como "Boa Noite, Amor" à modernidade de "Alguém Como Tu" e à irresistível euforia de "Pegando Fogo".
Em março, teremos os cem anos de dois favoritos de Carmen Miranda: no dia 14, o de Synval Sylva ("Adeus, Batucada", "Ao Voltar do Samba", "Coração", "Gente Bamba"); no dia 19, o de Assis Valente ("Minha Embaixada Chegou", "E Bateu-se a Chapa", "Uva de Caminhão", "Recenseamento", "E o Mundo Não se Acabou", muitas mais). E, a 23 de maio, será a vez do letrista Mario Rossi, parceiro de Roberto Martins no samba "Beija-me" e no fox "Renúncia", e de Marino Pinto no bolero (sim!) "Que Será?" ("Da luz difusa do abajur lilás/ Se nunca mais vier a iluminar/ Outras noites iguais...").
Isto apenas entre os aniversariantes que serão esnobados no 1º. semestre. Mas, até o fim do ano, o Brasil promete superar-se e esnobar Nelson Cavaquinho.
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