domingo, 18 de outubro de 2009

Cantora da 2ªGuerra volta ao 1º lugar no Reino Unido

Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo" de 18/outubro/2009, no caderno "Ilustrada"

Aos 92, musa do Pink Floyd derrota os Beatles
por Marianne Piemonte, colaboração para a Folha, de Londres

Vera Lynn é a artista viva mais velha a ter o disco em 1º lugar no Reino Unido

Coletânea da cantora que animou tropas britânicas na 2ª Guerra vende mais que os remasterizados do quarteto e bate marca de Bob Dylan

O racionamento de comida acabara de terminar no Reino Unido pós-guerra e, nos Estados Unidos, Elvis Presley começava a carreira. Era 1952 e Vera Lynn, a namoradinha das Forças Armadas britânicas, alcançava pela primeira vez o topo das paradas com o disco "We'll Meet Again".

No último dia 15 de setembro, aos 92, Lynn fez história novamente. Tornou-se a artista viva mais velha a colocar um disco na primeira posição do ranking de vendas, tomando o posto de Bob Dylan, que o fizera aos 67. "We'll Meet Again -The Very Best of Vera Lynn", com 24 músicas que ela cantava para as tropas no front, bateu os aclamados discos remasterizados dos Beatles e deixou para trás o novo do Arctic Monkeys. Ela é a cantora que inspirou o Pink Floyd na faixa "Vera", de "The Wall" (1979).

Com as comemorações dos 70 anos do início da Segunda Guerra, as músicas da nonagenária voltaram a tocar. No entanto, ela não receberá por isso. Como foram gravadas há mais de 50 anos, ela não detém mais os direitos das canções pelas leis britânicas. Mas a gravadora Decca, um braço da Universal Music, anunciou que a gratificará. Outro presente que recebeu foi o título de Mulher do Ano, no dia 12, em Londres.

Ela ficou feliz, mas sentiu estranheza porque a música não faz mais parte de sua vida desde a morte do marido, o clarinetista e seu empresário Harry Lewis, em 1990. "Tenho um gramofone em casa, mas nunca o ligo. Nem no banho eu cantarolo", disse ao "Sunday Times".

Vera começou a cantar aos sete anos em clubes para homens no leste de Londres. Aos 11, deixou a escola para excursionar com um show de variedades pela Grã-Bretanha. Em 1941, comandava o programa "Sincerely Yours" na rádio da BBC. Não foi surpresa que as músicas empostadas, estilo diva do jazz, fossem escolhidas para alegrar as tropas.

Vera voava nos aviões da Força Aérea Real e passava meses acampada com as tropas britânicas em instalações idênticas às dos soldados. O comediante Harry Secombe, do programa "Goon Show", o mais popular no radio britânico da época, disse ao "The Independent" que "Churchill não havia abatido os nazistas, mas a voz de Vera os tinha encantado para a morte".

Atualmente, ela não entende por que há soldados britânicos no Afeganistão. "Na Segunda Guerra, lutavam pelo nosso país. Hoje, estão envolvidos em problemas de outros países. Alguém pode me explicar?", disse ao "Sunday Times".

Hoje, as aventuras são duas temporadas anuais na França em busca de sol. No resto do ano, vive na pacata Sussex. Cozinha, faz compras e retira sua aposentadoria sozinha. Vera, que foi considerada a Marlene Dietrich britânica, diz que o segredo da saúde é a rotina. Acorda às 7h30, nunca pula uma refeição e não dorme maquiada.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Blogs musicais ameaçados

Texto publicado no "JBonline", página "Cultura" de 4/outubro/2009, fonte: http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/10/04/e041011198.asp

Google persegue blogs brasileiros
por Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO - Ferramenta popular para distribuição de arquivos musicais pela internet, os blogs de mp3 — sites que listam links através dos quais pode-se fazer o download de discos novos e antigos — estão, mais do que nunca, na mira da indústria fonográfica. E o Brasil não é exceção.

Um dos endereços brasileiros mais conhecidos, o Umquetenha (que funcionava em http://umquetenha.blogspot.com/) foi, há pouco mais de um mês, sumariamente retirado do ar pelo Google (que controla os blogs hospedados pela empresa Blogger.com). O que não impediu que os internautas tivessem acesso aos mais de 4.500 discos (todos de música brasileira) que o blog disponibilizava.

Com o fim do endereço original, o administrador do material resolveu transferir todo o seu acervo digital para outro servidor; enquanto reposicionava o seu conteúdo na web, o dono do Umquetenha passou a postar seus links via Twitter (twitter.com/umquetenha).

— O que o UQT faz não é pirataria — defende o criador do site, que prefere manter-se anônimo e só comunica-se por email, sob o pseudônimo Fulano Sicrano. — Não existe no Umquetenha uma única forma de remuneração envolvida, nenhum ganho direto ou indireto. Logo, não há motivo para perseguição ou punição.

Legislação dos EUA

Na atual guerra de ameaças e medidas jurídicas contra os internautas que baixam mp3, o blogueiro (que chegou a ter mais de 20 mil acessos diários em sua página) não vê muita esperança para quem defende a proibição da prática.

— Eu não conheço o aparato tecnológico ou procedimento que será usado para impedir que um determinado usuário acesse a internet. Mas me parece ser uma grande bobagem. Pode dificultar, mas duvido que impeça.

O administrador do Umquetenha foi obrigado a tirar o site do ar depois de receber uma notificação dos administradores da rede Blogger. A nota avisava que o blog havia recebido uma queixa de que estaria violando a DMCA, norma da indústria americana que regulamenta os direitos autorais (mesmo que o site só contasse com artistas brasileiros).

Caso semelhante ocorreu no ano passado com o blog Som Barato, também especializado em discos brasileiros — em sua maioria, raridades fora de catálogo — que teve os links para mais de 2 mil títulos deletados pelo Google.

Aos poucos, começam a aparecer no Brasil iniciativas da indústria fonográfica semelhantes às que já ocorrem nos EUA e Europa há tempos. No exterior, empresas de controle de direitos e segurança virtual como a Web Sheriff — uma das mais ativas e odiadas pelos baixadores de mp3 — passaram a ser contratadas por grandes artistas internacionais.

À frente dos interesses de selos e artistas como Prince, Arctic Monkeys, Franz Ferdinand, The Prodigy, Van Morrison, Bryan Adams, Black Crowes e Placebo, a empresa vasculha a rede para eliminar possíveis vazamentos de álbuns antes do lançamento oficial.

No Brasil, a Associação Anti-Pirataria Cinema e Música (APCM) também estende seus tentáculos. A entidade, que representa os braços operacionais de combate à falsificação da indústria fonográfica (ABPD) e da indústria de cinema e vídeo (MPA), retirou do ar, no início do ano, a comunidade Discografias, uma das mais acessadas pelos usuários do site de relacionamentos Orkut.

A associação, vinculada aos interesses de gravadoras e de produtoras de cinema, também eliminou sites dedicado a compartilhar filmes e seriados, como o IsLifeCorp. Em balanço que revela sua ações na rede, divulgado em 24 de setembro, a APCM indica que, na última quinzena daquele mês, solicitou a retirada do ar de 33.558 links estes encontrados em blogs, redes sociais, fóruns e sites. Também foram removidos 3.965 arquivos torrents — gerados para facilitar o compartilhamento através de rede P2P.

O administrador do Umquetenha prefere olhar a questão pelo lado dos artistas, e não o das companhias.

— O artista tem de usar todos os canais possíveis de divulgação. No caso do Umquetenha é de graça, como é na maioria dos blogs musicais que eu conheço. Os blogs têm a capacidade de equilibrar as oportunidades, aumentando as chances de reconhecimento daqueles que não têm muito dinheiro.

Liminha: “Música de graça é utopia”

Contrário aos sites e blogs que disponibilizam música sem autorização legal, o produtor Liminha defende que o acesso livre ao mp3 é pernicioso mesmo para artistas mundialmente estabelecidos.
— Quando se fala em download ilegal, as pessoas pensam, num primeiro plano, nos danos causados à gravadora. Mas na verdade, devemos olhar para o começo da cadeia: o compositor, o intérprete e o músico — alerta o produtor. — É um preço muito alto.

Apesar de a maior parte dos artistas independentes usar a internet para a divulgação de suas músicas, Liminha — um dos produtores mais consagrados da MPB e do pop brasileiro, tendo trabalhado com Gilberto Gil, Kid Abelha, Paralamas do Sucesso e Titãs — acredita que o panorama se torna ainda mais perigoso para o estabelecimento de jovens talentos.

— O cantor oferece a música de graça e depois vai fazer o show de graça. É muita gente trabalhando sem ganhar nada. Isso é uma utopia, só piora a situação da música. É preciso ter um mínimo de remuneração.

O produtor lembra que, mesmo com os avanços da tecnologia digital e da evolução dos softwares “caseiros” para a produção musical, o custo para a produção de um álbum ainda é muito elevado.
— Muita gente já não consegue viver só de música — diz. — É uma questão para ser resolvida de forma ampla. Poderiam criar um imposto artístico. Ou mesmo os provedores de internet, fabricantes de computadores podiam criar um fundo para ser distribuído entre as pessoas que produzem música.

Liminha ressalta que o preço cobrado por um álbum digital, muitas vezes próximo ao valor estipulado pelo produto físico, é um entrave ao comércio musical online.

— Nisso as gravadoras estão erradas. Não existe motivo para que o download custe o mesmo preço de um CD, que é transportado fisicamente, com um imposto sobre ele. Acho o preço do download exagerado.

* Taís Toti

Miranda: “Grátis é mais prazeroso”

Produtor musical, ex-diretor artístico de gravadoras (Banguela, Excelente, Trama) e hoje jurado do programa Qual é o seu talento? (SBT) Carlos Eduardo Miranda acha que a discussão sobre download de músicas não é mais necessária.

— O download já é algo consolidado, todo mundo já sabe como funciona. Quem quer comprar, compra, quem quer pagar, paga, quem quiser pegar de graça pega, é opção do usuário.

Miranda acredita que não há como controlar o compartilhamento de arquivos pela rede, e que em vez de impedir o download gratuito e ilegal, as gravadoras deveriam tornar mais prático e atrativo o comércio de música online.

— As pessoas vão se dispor a pagar quando valer a pena. Hoje é mais fácil, prazeroso e enriquecedor baixar de graça do que pagando. Vá a um blog de mp3 por exemplo, e lá você encontra grandes discos, comentários sobre eles, artistas novos. Isso instiga a descobrir novas músicas. Se você vai numa loja de mp3, vai ser conduzido para obviedades. Não há nada de interessante, de novo, e ainda é mais demorado. No blog é um clique e pronto.

O aumento dos downloads ilegais, na opinião do produtor, é culpa dos próprios artistas, que sempre afirmaram que “eram roubados pelas gravadoras e que a venda de discos não era lucrativa para eles”.

— Quando o artista fala isso publicamente não pode esperar que o público vai agir diferente. O fã vai pensar: “se o artista não ganha nada com isso, então está liberado roubar”.

Só que agora, lembra o produtor, é preciso entender que quem perde com o download gratuito não é só a gravadora, mas também o artista.

— É preciso conscientizar o público que pegar de graça foi algo importante, revolucionário. Mas agora é algo retrógrado, que vai contra o artista e contra o que ele gosta. (Taís Toti)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Preço justo, oferta variada...

Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo" de 30/setembro/2009, no caderno "Ilustrada"

CONEXÃO POP
Piratear ou não piratear?
por Thiago Ney, da Reportagem Local

Gente como Fred Zero Quatro e Lily Allen são um refresco dentro dos debates de cultura pop. Porque, diferentemente da maioria dos artistas, não se apegam ao oba-oba, tentam fugir do discurso fácil, raso, cômodo, do senso comum que impera nos discursos envolvendo música e internet.

Duas semanas atrás, em entrevista à Folha, Zero Quatro criticou o que chama de "fundamentalismo tecnológico": a aceitação universal de que a pirataria deve ser aceita e que é inútil lutar contra.

Dias antes, Peter Mandelson, ministro de Negócios do Reino Unido, anunciou plano de desconectar -sem a necessidade de processo judicial- usuários acusados de fazer download ilegal de arquivos (de música, games, filmes etc.).

Como reação a Mandelson, artistas como Radiohead, Robbie Williams, Billy Bragg criou o Featured Artist Coalition, grupo que apoia a troca de arquivos sem autorização.

Lily Allen, então, iniciou uma campanha em que ataca a pirataria, dizendo que o download ilegal é prejudicial principalmente aos novos artistas. Ela foi apoiada por Elton John e James Blunt.

*

Não concordo com muitos dos argumentos de Zero Quatro e de Lily Allen, mas eles são corajosos de permanecer distantes de uma maioria que se baseia em falácias e em ações hipócritas.

Falácias como as de Chris Anderson, cuja "teoria" da cauda longa (muitos se manterão vendendo pouco) já foi desmantelada e que lança um livro, "Free - O Futuro dos Preços", em que enaltece a economia gratuita -gratuita para os outros, claro, pois as 88 páginas de "Free" custam, no Brasil, R$ 59,90.

E ações hipócritas como a do Radiohead, que enriqueceu dentro do esquemão das gravadoras e que depois, para ganhar uns trocados em cima dos fãs que fariam de qualquer jeito o download do disco, lançou "In Rainbows" no formato "pague quanto quiser" (ou seja: em vez de não receber nada com o inevitável vazamento do álbum na internet, a banda ganhou bom dinheiro maquiando o lançamento digital do disco).

Mas Zero Quatro e Lily Allen esquecem diversos fatos. No Brasil, pouquíssimos artistas ganhavam dinheiro com disco. Artistas médios e pequenos conseguiam, no máximo, pagar as contas com a venda de CDs; o grosso da receita vinha de shows e de publicidade.

*

Outro ponto. Faz-se o download ilegal hoje porque a indústria do entretenimento ainda não conseguiu acompanhar o desejo e a necessidade dos consumidores.

É inexplicável sermos obrigados, no Brasil, a esperar meses para assistirmos a uma série de televisão, ou de não termos a possibilidade de baixarmos, por um preço justo, o novo álbum de artistas gringos.

Se o preço for justo, e a oferta, variada, continuaremos pagando.
thiago.ney@uol.com.br

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Livro: suporte imbatível... por enquanto?

Texto publicado no jornal "Folha de S.Paulo" de 16/setembro/2009, no caderno "Opinião"

Bonito, gostoso e prático
por Ruy Castro

RIO DE JANEIRO - Um dos temas mais momentosos da Bienal do Livro, em cartaz no Riocentro, é se o livro impresso, de papel, corre o risco de desaparecer, fulminado pelas novas tecnologias. Eu próprio, zanzando entre os stands no último domingo, fui perguntado várias vezes sobre isso.

Curiosamente, quem olhasse ao redor diria que a pergunta não fazia sentido e que a indústria do livro nunca esteve tão robusta neste país. Era um domingo de escandaloso azul, com as praias, os passeios e todas as formas de lazer grátis no Rio convidando o povo a estar em qualquer lugar, menos ali, num conjunto de pavilhões em Jacarepaguá, a mais de uma hora de Ipanema, e tendo de comprar ingresso para entrar.

Pois essa pergunta estava sendo feita em meio a montanhas de livros expostos e 125 mil pessoas, número de visitantes que, segundo a Bienal, compareceu no fim de semana. Gente que não pagou para ver malabaristas, engolidores de fogo ou artistas globais, mas romancistas, biógrafos, poetas ou autores de livros para crianças.

Respondi que, como formato, o livro é difícil de ser superado — porque já nasceu perfeito, e não é de hoje. Ele é bonito, gostoso e prático. É também portátil: pode ser levado na mão, na mochila ou na bolsa, e lido no sofá, na cama, no banheiro, na mesa do jantar, no bonde, no ônibus, no jardim, na praia, na banheira, onde você quiser.

É também barato: quem não tiver dinheiro para comprar livros novos, encontrará farta escolha nos sebos e até na calçada da rua.

Um livro pode nos alimentar por uma semana, um mês ou o resto da vida. E, ao contrário do CD e do DVD, não precisa de uma máquina para tocar. Basta ser aberto para poder ser lido. Na verdade, o livro só precisa de nós.

Neste momento, mais do que nunca, talvez.

domingo, 6 de setembro de 2009

A discografia mais esperada

Texto publicado no site JBonline, do "Jornal do Brasil", de 5/setembro/2009 às 19:53

Cultura
Depois deles, o fim dos discos
por Ricardo Schott, "Jornal do Brasil"

RIO - Agora não falta mais ninguém. Com o projeto "Remastered", que chega às lojas de todo o mundo nesta quarta-feira, os Beatles finalmente têm toda a sua obra relançada em duas caixas especiais — uma em estéreo e outra em mono — após um cuidadoso trabalho de masterização, fazendo justiça à trajetória da banda, que havia chegado ao CD, na maioria das vezes, em edições descuidadas, tanto em relação ao som quanto à qualidade dos encartes.

A reunião da obra remasterizada dos Fab Four acontece bem depois de bandas que estão, historicamente falando, aquém do seu legado, como Queen (The crown jewels), Pink Floyd (Oh by the way), Led Zeppelin (Definitive collection, com réplicas dos antigos LPs em CD), Rolling Stones (The London years, com singles, além das recentes remasterizações). Na verdade, bem depois de grupos do segundo escalão do rock. Até mesmo Yoko Ono, viúva de Lennon, já teve uma boxset, Onobox, uma compilação de seus álbuns solo, lançada em 1992 pelo selo Rykodisc com fonogramas licenciados da mesma Apple montada por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr em 1968.

O lançamento, aguardado por mais de 20 anos pelos fãs, cria um novo paradigma para a indústria fonográfica: que projeto especial em CD seria capaz de mobilizar o público como a obra completa do maior fenômeno da música pop?

Restará ao mercado reciclar o catálogo das bandas dos anos 80 e 90 – muitas vezes apenas reempacotando o que já nasceu digital, como aconteceu recentemente com o relançamento “de colecionador” do debute homônimo da banda grunge Pearl Jam (1991)?

— Pode ser que pare por aí mesmo, porque espremeram a laranja até o bagaço. Parece ser o fim de uma era — relata o produtor Liminha. — Fui à loja da Sony em Nova York recentemente e vi poucos CDs lá. O formato realmente não representa mais a maior parte do negócio de música gravada. Eu mesmo compro CDs porque o som é melhor e tem mais informação. Mas passo para o computador e iPod por ser mais cômodo.

Diretor de marketing estratégico da EMI, gravadora responsável por lançar as caixas dos Beatles, Luiz Garcia é outro a contar com tal possibilidade.

— Acho possível que seja o último grande lançamento, porque não se vê outra coisa tão importante quanto os Beatles — explica. — É a discografia mais esperada da história do CD. Muitos até duvidavam que fossem deixar alguém mexer nos masters originais. Chegou-se a cogitar na EMI a remasterização dos discos em separado, quando cada um deles fizessem 40 anos.

Fã dos Beatles, pesquisador musical e dono do selo Discobertas, Marcelo Fróes acha que o que o CD tem mais a oferecer para o público comprador é o seu charme.

— Para quem, como eu, acredita que música é algo mais do que apenas o áudio executável, o formato continuará existindo – explica Fróes, que, por seu selo já lançou exemplares da série "Letra & música" dedicados a Lennon, McCartney e Harrison e também prepara para esta semana os três CDs da série "Beatles 69", com regravações de tudo o que o quarteto gravou no ano de 1969. — Mas acho que será o fim do formato no que diz respeito às grandes campanhas. Na sequência realmente vem a música digital.

O veterano produtor Pena Schmidt, outro grande fã da banda, desdenha dos relançamentos.

— Será que tem alguém que ainda dá importância para isso? — questiona. — Bom, se tem, que sejam felizes, né? Não vejo nada de mais, é só mais uma operação caça-níqueis. Tudo isso só dá saudade do vinil original em mono, que é o que me dá vontade de escutar sempre que vejo esses projetos.

João Augusto, presidente da Deckdisc, crê que, após a febre beatle, a saída para a indústria musical é realmente atacar as bandas dos anos 80 e 90.

— São elas que certamente terão seu catálogo revitalizado. Trata-se de um fluxo normal — afirma o produtor. — Quanto ao relançamento, sempre é uma cereja no bolo poder contar com algo que você não tinha de um disco do qual é fã. "Thriller", do Michael Jackson (1982) marcou fortemente minha carreira de produtor e, recentemente, tive uma grande aula ao encontrar uma versão em vinil com um LP bônus cheio de faixas com mixagens especiais.

O produtor Armando Pittigliani, responsável pela gravação de alguns dos discos pioneiros da bossa nova, acredita que apenas a obra de um brasileiro possa criar interesse semelhante, guardadas as devidas proporções: — Só falta o João Gilberto. Mas ele não deixa de jeito nenhum. A EMI já tentou diversas vezes relançá-lo e isso já gerou até processo.

O projeto — que traz, além dos 13 lançamentos avulsos em estéreo (indo do primeiro disco, "Please please me", de 1963 ao derradeiro "Let it be", de 1970, estendendo-se à coletânea "Past masters", de 1989), uma caixa estereofônica e outra relembrando os 10 primeiros álbuns como eles haviam sido lançados originalmente, em mono — tem caráter definitivo para a indústria do disco, já que os discos dos Beatles eram praticamente os mesmos há mais de 20 anos.

Os CDs da série "Beatles remastered" substituem as edições lançadas em 1988, que frustraram vários fãs por trazerem álbuns como "Help!" e "Rubber soul", ambos de 1965, remixados.

— A discografia não foi verdadeiramente remasterizada naquela época — relembra Fróes. — São meras digitalizações das matrizes não-equalizadas dos LPs, e portanto sem o punch que as prensagens originais tinham. Houve uma reclamação geral com relação ao som naquela época.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

New York dá samba!

Texto publicado no jornal "O Estado de S.Paulo", de 25/agosto/2009, no "Caderno 2"

Samba aprende-se no colégio. Do Harlem

Cativados pelo ritmo brasileiro, alunos de escola pública do bairro de NY, famoso pelo gospel, dão show com minibateria

por Tonica Chagas

Batuque é um privilégio mas, contrariando o Feitio de Oração, de Noel Rosa, pode-se aprender samba no colégio, sim. E em colégio público americano, como mostraram, no começo da noite de quinta-feira passada nos jardins do Lincoln Center, em Nova York, alunos da Frederick Douglass Academy (FDA), escola secundária municipal no bairro do Harlem. Integrantes da Harlem Samba, uma minibateria formada lá há três anos, desfilaram pelos caminhos e pracinhas do centro cultural nova-iorquino célebre pelas óperas, concertos eruditos e espetáculos de balé, dando um show de 40 minutos no programa de música ao ar livre Lincoln Center Out of Doors. O batuque brasileiro - com mistura de reggae e hip hop - que animou o público americano é uma das matérias preferidas dos alunos da escola, que fica a poucas quadras do Yankee Stadium e no bairro onde um dos estilos prediletos de música é o gospel.

"Fazer parte da Harlem Samba é como fazer parte de uma banda de rock, a gente se diverte muito", diz Ariel Moyé, de 18 anos, caloura no curso de Artes do City College of Technology. Como muitos dos instrumentistas, mesmo já tendo saído da escola Ariel, ela continua tocando agogô na bateria que é dirigida pelo professor de música Dana Monteiro. Trompetista erudito por formação, com diploma da New York University e da Columbia University, Monteiro (o sobrenome luso vem de Cabo Verde, onde nasceram os pais dele) dá aulas na FDA desde 2001. Mas até ele mesmo aprender o que é samba, música era uma coisa que os alunos só aprendiam por pura obrigação.

"Sempre tentei ensiná-los a tocar instrumentos de sopro ou de cordas, mas eles só queriam saber de bateria e atabaques e era impossível tocar juntos", conta ele. A razão dessa preferência está no sangue, explica o diretor da FDA, Gregory Hodge, ao apontar os dados etnográficos da escola: 75% dos 1.600 alunos são afro-americanos e 24% são hispânicos.

O estalo sobre como entrosar a molecada na mesma harmonia veio nas férias que Monteiro passou no Rio, em 2004, onde um amigo o levou a um ensaio da Unidos de Vila Isabel. "Quando ouvi cerca de 200 pessoas tocando tambores ao mesmo tempo, senti que aquela seria a forma de entrosar os alunos", diz o professor. De volta a Nova York, com discos de samba-enredo na mala, ele foi aprender a tocar todos os instrumentos da percussão brasileira com outro americano, o etnomusicólogo Philip Galinsky, criador e diretor da Samba New York, a "school of samba" mais famosa e atuante da cidade.

A batucada foi entrando no currículo da FDA conforme Monteiro e Hodge convenciam amigos que viajavam para o Brasil a trazer-lhes bumbos, repeniques e tamborins. E todo aluno que não gostava ou não conseguia aprender o dó-ré-mi no piano, na flauta ou no violão foi cativado pelo baticumbum. "Uma das grandes vantagens do samba é que ele é democrático", diz Monteiro.

"Temos 250 alunos que compartilham pouco mais de 50 instrumentos, todos podem participar, aprendem rápido e gostam disso. Como professor, é gratificante vê-los aprendendo algo novo, como se estivessem estudando uma língua estrangeira, abrindo a cabeça para o mundo."

Em 2006, Monteiro formou a Harlem Samba com quatro garotos e quatro meninas escolhidos entre os melhores no novo idioma ensinado na FDA. O grupo agora tem 35 integrantes fixos.

Muitos já estão na faculdade, estudando em outros Estados, mas voltam sempre que podem para participar nem que seja só de um ou outro ensaio. A maioria mora, como eles dizem, "cruzando a ponte", no Bronx, onde o quadro socioeconômico é mais duro que o do bairro onde fica a escola que frequentam. O grupo unido pelo samba tem um significado especial para muitos deles.

A experiência que passou depois de aprender a tocar chocalho e ficar na linha de frente da bateria foi reveladora para Nikkita McPherson. "Antes, eu só conhecia o carnaval dos imigrantes de Trinidad que desfilam um dia por ano pelas ruas do Bronx, nunca tinha ouvido falar do carnaval brasileiro", lembra Nikkita que, por ter sempre boas notas, já viajou por um programa da FDA duas vezes para o Brasil e conheceu o Rio, São Paulo e Salvador. "Depois de cruzar uma distância de nove horas de voo, bem maior do que a da minha casa até a escola, descobri que aquelas pessoas não são diferentes de mim", diz ela. "São gente pobre que, no carnaval, são muito felizes. São como eu. O samba trouxe muita alegria para a minha vida." Em setembro, com bolsa de estudos integral, ela começa a cursar Ciências Políticas no Darthmouth College, em New Hampshire, uma das oito universidades americanas que integram a tradicional e conceituada Ivy League.

Da viagem que fez ao Brasil, Maurice Julius Evans, de 18 anos, outro dos integrantes originais da Harlem Samba, voltou com lembranças iguais às de Nikkita e um repenique - ou "happy Nick", como soa a palavra na pronúncia dele. Evans acabou de ingressar no curso de Física no Hostos College que, por ficar no Bronx, não o deixa longe dos ensaios na FDA. Esta semana, ele divertia os colegas contando que sua mãe, que o faz praticar os solos com toalhas sobre o instrumento para não incomodar os vizinhos, o surpreendeu na missa do domingo passado ao lhe entregar o tamborim com que acompanhava o gospel e pedir que a ensinasse a tocar samba.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

The Beatles, uma análise faixa a faixa

Texto publicado no "Jornal da Tarde", de 18/agosto/2009, na seção "Variedades"

Tintim por tintim

Guia Beatles disseca solo por solo, música por música, álbum por álbum

por Felipe Branco Cruz, felipe.cruz@grupoestado.com.br

Muitos livros já foram publicados sobre os Beatles abrangendo praticamente tudo. Desde fofocas e brigas até análises em profundidade das gravações no estúdio Abbey Road, em Londres. Então, por que lançar mais um?

Isney Savoy, da editora Larousse, responde: “O foco agora não são as intrigas. O trabalho faz análise inédita apenas da música.” O livro em questão é o The Beatles - Gravações Comentadas e Discografia Completa, lançado pela Larousse.

Escrito pelo britânico Jeff Russel, nascido em Liverpool, cuja a vida foi praticamente dedicada a pesquisas sobre o grupo, o livro apresenta a discografia completa, com notas dos bastidores das gravações.

São informações sobre cada canção lançada oficialmente, os títulos, as faixas (com a duração), as datas de lançamento, os créditos dos compositores e comentários sobre cada faixa. Na introdução, Russel justifica sua pesquisa.

“Não há nada mais a ser dito? Ao contrário. Muito ainda pode ser dito sobre a razão de ser dos Beatles. Sua música e, sobretudo, seus álbuns.”

Durante anos os mesmos álbuns que eram lançados no Reino Unido saíam em outros países retalhados pelas gravadoras que mudavam o desenho da capa, a sequência das canções e até cortavam músicas para lançar dois LPs em vez de um e faturar mais.

A prática foi comum nos Estados Unidos e no Brasil. Por isso, Isney Savoy, de 57 anos, fã da banda, foi recrutado para incluir na obra um capítulo com a discografia brasileira.

“Os álbuns dos Beatles no Brasil tiveram algumas particularidades. Por isso, os discos lançados por aqui são raridades”, diz Savoy, que começou a ouvir Beatles quanto tinha apenas 12 anos.

Dentre as características dos álbuns brasileiros está uma falha na canção Penny Lane, no álbum The Beatles Forever, de julho de 1972, lançado apenas por aqui como uma coletânea aleatória que reúne músicas de Magical Mystery Tour e outras faixas de compactos duplos.

A falha mostra um corte brusco após o verso “Full of fish and fingerpies”. “Foi uma falha no disco matriz recebido da Inglaterra. Como os brasileiros achavam que os Beatles faziam coisas inovadoras, acharam que a falha era proposital”, explica Savoy.

Graças a essas mudanças feitas pelas gravadoras de outros países, os Beatles passaram a exigir que seus álbuns fossem lançados da mesma forma no mundo inteiro.

“Eles criaram o conceito de álbum, com as canções seguindo uma sequência. Antes, cada país incluía as músicas em qualquer ordem, de acordo com o que eles imaginavam que o mercado local gostaria mais”, diz.

Uma das exigências da banda era que nunca fossem lançadas coletâneas. Recomendação ignorada no Brasil, já que por aqui foram lançados títulos como Juventude em Brasa, O Mundo em Suas Mãos - Vol. 3 e Ídolos da Juventude - Vol. 2, todos de 1965.

Contra o retalhamento feito nos Estados Unidos, a banda decidiu protestar e a capa do disco The Beatles Yesterday and Today (lançado apenas nos Estados Unidos em junho de 1966) saiu com eles vestidos de açougueiros segurando pedaços de carne e bonecas decapitadas.

O público reagiu e não gostou, tanto que a capa foi substituída por outra mais comportada. O exemplar é hoje extremamente cobiçado entre os fãs da banda.

Em seguida, a banda lançou Revolver, em agosto de 1966. O livro conta uma curiosidade do trabalho. Na canção de abertura, Taxman, quem toca o solo de guitarra não é George Harrison, mas sim Paul McCartney (apesar da canção ser de autoria de Harrison). Na última do álbum, Tomorrow Never Knows, o mesmo solo de Taxman é executado de trás para frente, por Harrison.

O livro abre com a história do primeiro álbum da banda, batizado de The Early Tapes of the Beatles, gravado em Hamburgo, Alemanha, em 1961. Eles tocam seis canções com o cantor Tony Sheridan, mas uma outra banda também aparece no LP, a The Beat Brothers.