sábado, 4 de abril de 2009
Serviço de saúde musical
Santo remédio à base de sustenidos e bemóis
por Sérgio Augusto
Ruim da cabeça? Angústia? Depressão? Estresse? Hipertensão? Tiques nervosos?
O divã pode ser uma solução; Prozac, Zoloft, Lexotan, Rivotril, betabloqueadores também; mas o único tratamento sem contraindicação para todos esses e outros males é a música. Seus efeitos colaterais praticamente inexistem, embora crianças assustadiças não devam ser submetidas às cortantes violinadas que Bernard Herrmann compôs para o assassinato de Janet Leigh em Psicose, sob pena de perderem o sono ou, pior ainda, sofrerem um ataque de "epilepsia musicogênica" semelhante ao que vitimou um crítico musical do século 19, chamado Nikonov, em quem a ópera O Profeta, de Meyerbeer, sempre provocava convulsões. Mas patologias como a de Nikonov são raríssimas.
Música é uma bênção para o corpo e o espírito. Pura superstição aquela história de que Tristão e Isolda poderia enlouquecer seus ouvintes mais delicados. Por ir fundo às mais recônditas regiões da psique, ativando quase todo o cérebro humano, dos centros nervosos sensitivos ao córtex pré-frontal, cerebelo, hipocampo e córtex motor, a música mexe com as atividades racionais, as emoções, a memória e os movimentos do corpo humano. Indutora de dopamina, serotonina e adrenalina, ela emociona, acalma, relaxa, enleva, consola, inspira, levanta o ânimo e excita ("Ouvimos música com os nossos músculos", apregoava Nietzsche). Já se desconfiava disso desde, pelo menos, Platão.
A musicofilia é inata no ser humano. A fala, aliás, teria derivado, segundo Darwin, da música primal que nossos ancestrais semi-humanos usavam para atrair um parceiro. Os hominídeos paleolíticos já cantavam, comprovou Steven J. Mithen em seu estudo sobre a origem da música, da linguagem, da mente e do corpo, The Singing Neanderthals (Harvard University Press), publicado em 2005.
Assim como a inteligência nada tem a ver com a sensibilidade musical (do contrário, Nabokov e João Cabral de Melo Neto, dois notórios ouvidos de chumbo, não teriam feito o que fizeram), a burrice nunca foi empecilho para o desenvolvimento de algum tipo de musicalidade, ativa e passiva. Oliver Sacks refere-se a um retardado mental que sabia de cor duas mil óperas, era um "dicionário de música ambulante" e assim foi definido num capítulo de O Homem Que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, reaparecendo, com maior destaque, no recente Alucinações Musicais - Relatos sobre a Música e o Cérebro, também traduzido pela Cia. das Letras.
Muito se progrediu desde as especulações de William James sobre a nossa "suscetibilidade à música" (e suas propriedades sedativas, consolativas e emocionais) e o hype em torno do Efeito Mozart (as crianças ficariam mais inteligentes, as galinhas poriam mais ovos e as vacas dariam mais leite se expostas a longas audições de sinfonias e concertos do Wolfgang Amadeus). Sobretudo no campo científico, graças à dobradinha neurociência-informática, que tornou possível estudar e monitorar a complexa orquestração dos milhões de neurônios que compõem o cérebro.
Datam de meados dos anos 1960 as primeiras observações de Sacks sobre os efeitos da música em pacientes com doença de Parkinson. O estudo pioneiro de Macdonald Critchley e R.A. Henson sobre as relações da música com o cérebro, Music and the Brain, foi publicado em 1977. Mas as pesquisas nesse campo atingiram novo patamar na Universidade Médica Paracelsus de Salzburgo, na Áustria, onde a dra. Vera Brandes implantou um programa de pesquisas sobre música e medicina. Com ela, a musicoterapia ganhou (ou está prestes a ganhar) uma farmacologia.
Nada em frascos, bem entendido. Nem comprimidos, nem cápsulas, nem gotas, nem injeções de Beethoven (ou de Mantovani), nem emulsões de Scott Joplin ou soros hardrock punk estão previstos. Florais de Bach? Já bastam os que o dr. Edward Bach legou à homeopatia. O que de benéfico Johann Sebastian nos tem a oferecer está em suas fugas — e, a exemplo dos benefícios à saúde proporcionados por outros músicos e compositores, contido num artefato de armazenamento digital de áudio. É "remédio" de aplicação exclusivamente auricular, capaz de fazer nosso cérebro zunir com intensa atividade neural.
"Ouvir música de qualidade e frequentar concertos com certa regularidade rejuvenesce as pessoas", promete o dr. Michael F. Roizen, do Wellness Institute da Clínica de Cleveland, que admira e acompanha o trabalho da dra. Brandes. "Música de qualidade alivia o estresse, retarda o envelhecimento das artérias e ajuda a enfrentar fatores ambientes adversos e cancerígenos, benefícios que assistir a competições esportivas, por exemplo, não oferece", assegurou ele no congresso Mozart & Ciência, realizado em Viena, em novembro passado.
Até pode ser, mas o conceito de "música de qualidade" é relativo. O produtor de discos e neurocientista Daniel J. Levitin, autor de um livro excelente e delicioso de ler sobre o funcionamento do cérebro sob o efeito de sons harmoniosos e dissonantes, This Is Your Brain on Music (Palmer, 2006), tem uma visão bem mais eclética da sedução e da eficácia terapêutica da música. Suas análises não se limitam aos clássicos; cobrem também o jazz, o pop e o rock; de Abdul (Paula) a Zeppelin (Led). A música que me encanta e constaria da minha receita pode não ser a mesma de que o prezado (& angustiado & deprimido & estressado) leitor prefere e talvez precise aplicar em sua complexa máquina cognitiva.
Os mais estranhos sortilégios da música estão registrados em toda parte. Em seu último livro, Oliver Sacks registra dois casos extremos de musicofilia: o de um ortopedista que aprendeu música depois de atingido por um raio e o de um musicólogo inglês que teve toda a memória apagada, menos a musical. Tony Cicoria, o ortopedista atingido por um raio, saiu do choque com uma vontade louca de ouvir piano, especialmente Chopin, e em questão de meses, partindo do zero, transformou-se num pianista. Clive Wearing, o musicólogo que uma infecção meningocócica condenou à amnésia, não se lembra de nada, só das músicas que ouviu desde a infância. O próprio Sacks recuperou-se das dores num joelho avariado nas montanhas norueguesas ouvindo repetidas vezes o Concerto para Violino, de Mendelssohn.
A dra. Vera Brandes, ex-produtora de shows e concertos, responsável pelos célebres improvisos ao piano de Keith Jarrett em Colônia, em 1975, descobriu sua vocação para farmacologista musical ("a primeira do ramo", vangloria-se) quando se recuperava de um acidente de carro. Dividia o quarto do hospital com um budista, cujos parentes e amigos já entravam no recinto cantando e dançando. Vera sarou em duas semanas. A previsão era de meses.
"Só pode ter sido efeito da música", matutou. E começou a desenvolver "medicações" em forma de música, pesquisando, misturando e balanceando temas, ritmos, timbres e sonoridades, em "compostos medicinais". Primeira cobaia: sua mãe, vítima de câncer. Não a curou, claro, pois o poder de toda a escala musical não chega a tanto, mas ela durou muito mais tempo do que o previsto pelos médicos.
Para comercializar sua teoria, a dra. Brandes criou uma empresa, Sonoson, especializada em montar sistemas musicais personalizados para clínicas, que chegarão aos mercados alemão e austríaco no segundo semestre deste ano e ao americano, em 2010. Funciona assim: o paciente, depois de diagnosticado por seu médico, recebe uma espécie de iPod abarrotado de músicas, testadas em laboratório e com estímulos específicos, mais um fone de ouvido e um medidor de pulso para registrar batimentos cardíacos e outros índices fisiológicos. Parece musak de manipulação, homeopatia sonora, e é inútil, alerta a doutora, no combate a patologias complicadas e doenças infecciosas, mas tiro e queda para desordens psicossomáticas e o que ela qualifica de "doenças da civilização": ansiedade, depressão, insônia e certos tipos de arritmia.
Experiência similar ocorreu ao psicólogo americano Jeff Berger, que, a partir de dados sobre as influências da atividade musical no cérebro, fornecidos pelo dr. Gottfried Schlaug, neurologista da Escola de Medicina de Harvard, criou na internet uma emissora de rádio alternativa (sourcetone.com), "o primeiro serviço de saúde musical do mundo". Seu objetivo é promover o relaxamento, aumentar o vigor, estimular a criatividade e restaurar a felicidade dos ouvintes. Não tive tempo suficiente para testar sua eficácia. Cliquei a opção calmo/tranquilo, e na caixa de som do meu computador entrou Sade (Bullet Proof Soul), a seleção Rhythm & Blues, e , depois, Debussy (a seleção clássicos do século 20) e Joni Mitchell (jazz vocal). Não fiquei mais relaxado, nem mais criativo (de que este texto é uma prova cabal), mas meus tímpanos não se sentiram agredidos, um consolo.
Tentarei mais uma vez. Já me darei por satisfeito se diminuir a insônia.
sábado, 28 de março de 2009
O "retorno" do LP é pra valer?
Humilhando os amigos
por Ruy Castro
RIO DE JANEIRO - Um recente bordejo na Europa pelo que restou daqueles antigos templos do consumo, as lojas de discos, revelou prateleiras contendo um artigo que se supunha mais extinto que o dodô: o long playing, ou LP. Aquele que, depois do advento do CD, passou-se a chamar de "vinil".
O que, aliás, é tão sem sentido quanto chamar o CD de metal -vinil e metal sendo apenas o material com que são fabricados. Ou eram, porque o LP saiu de linha em 1990, depois de 42 anos como o formato ideal para se ouvir música gravada, e o CD, muito mais jovem, também já caducou diante dos novos meios eletrônicos.
Um dos prazeres do tempo do LP era ser o primeiro a ter o disco do Fulano ou do Beltrano, que acabara de sair nos EUA e ainda não chegara às importadoras por aqui, nem tinha previsão de edição nacional. Os mais enturmados eram amigos de comandantes da Varig, que os traziam na bagagem juntamente com as ampolas de Black Label e outros itens de primeira necessidade.
Ou então, quando o próprio sujeito viajava, o principal programa na volta era reunir os amigos e humilhá-los com uma audição em primeira mão. Os veteranos falam sobre isto com discos como "Only the Lonely", com Frank Sinatra, em 1958, "Time Out", com Dave Brubeck, em 1959, a trilha sonora de "West Side Story", em 1961, ou a de "A Hard Day's Night", em 1964.
Não por acaso, estes são LPs que vi há pouco em lojas de Madri e Berlim — lindos, que nem os originais, estalando de novos, prensados de véspera —, ao lado de toca-discos também novos e cópias exatas, até a última válvula, dos Technics do passado.
O que significa? Que os LPs estão voltando? Não, é só um capricho dos fabricantes. Um mimo para os que ainda gostam de ouvir grande música, bem gravada e num insuperável suporte físico.
quinta-feira, 5 de março de 2009
Dica de site musical
Músicos do Brasil — Uma enciclopédia instrumental
Site www.musicosdobrasil.com.br reúne 700 verbetes sobre instrumentistas e uma centena de textos sobre música brasileira
Em Músicos do Brasil: Uma Enciclopédia Instrumental - http://www.musicosdobrasil.com.br/ -, site disponível desde o início de fevereiro, estão reunidos verbetes sobre cerca de 700 dos principais instrumentistas que passaram pelos estúdios e palcos brasileiros. Não apenas os grandes nomes, vivos ou não, mas também centenas de músicos que tiveram papel importante na melhor música produzida no país desde o início das gravações até a atualidade.
O site foi criado e desenvolvido a partir de setembro de 2007 por Maria Luiza Kfouri, pesquisadora de música brasileira que desde 2005 mantém o site Discos do Brasil - Uma Discografia Brasileira (http://www.discosdobrasil.com.br/), e por Fernando Barcellos Ximenes, que escreveu todos os textos sobre os músicos já falecidos.
Além dos verbetes, ensaios escritos por especialistas e dissertações universitárias sobre grupos musicais, instrumentos, estilos e discos significativos. Referências cruzadas, através de links, permitem o aprofundamento da pesquisa sempre que o leitor desejar. O site tem ainda fotos de grande parte dos músicos e cerca de 250 músicas cujos fonogramas foram cedidos pelos próprios artistas.
A direção de tecnologia é de Mauro Caldas, o Zeca Louro, outro especialista em música nacional, criador do blog Loronix, que é junto com Discos do Brasil uma das fontes primárias para o banco de dados de Músicos do Brasil.
Segundo Kfouri e Ximenes, uma das propostas do trabalho "é eliminar a dificuldade encontrada a cada vez que se pretendia pesquisar a origem do uso de determinados instrumentos em nossa música, seus mestres, autores, arranjadores e líderes de orquestras e conjuntos - assim como os diversos gêneros de música instrumental ou, ainda, a metodologia utilizada por um grande instrumentista ou arranjador - e se esbarrava na ausência de informações objetivas que se concentrassem no principal: na vida musical, nos estudos, na obra, nas influências sofridas e exercidas, na linhagem criada."
Os verbetes dos músicos vivos foram elaborados a partir de questionários enviados pela Internet para os instrumentistas obedecendo ao critério "poderá entrar na Enciclopédia todo músico que gravou ou participou da gravação de um disco instrumental".
Os questionários foram respondidos por escrito através da Internet ou, em alguns casos, por entrevista gravada. Os verbetes sobre os músicos falecidos se baseiam em pesquisas realizadas na Internet, complementadas por fontes bibliográficas.
Os verbetes tratam da formação, do pensamento do músico e de como ele é em suas diversas facetas: como professor, como instrumentista, como compositor, como arranjador, o que considera como os principais momentos de sua carreira, quais são suas preferências musicais, e sua discografia.
O questionário está disponível no site para ser respondido. Evidentemente, a escolha da Internet como mídia deve-se, também, ao fato de que uma Enciclopédia como esta nunca estará completa.
Assim, Músicos do Brasil: Uma Enciclopédia terá evolução constante, com a incorporação progressiva de novos verbetes, ensaios, exemplos musicais e fotografias, na medida em que sejam disponibilizados e que a legislação de direitos autorais permita.
Dentre os quase 500 questionários já respondidos, algumas curiosidades: Wagner Tiso foi dos primeiros a responder o questionário e a ter seu verbete editado; Francis Hime respondeu ao questionário à mão; músicos que moram fora do Brasil também responderam, como Romero Lubambo, Cesar Camargo Mariano, Duduka da Fonseca, Nilson Matta, Rodrigo Botter Maio, Márcio Tubino, Carlos Bernardo e Airto Moreira, entre outros.
A Enciclopédia tem músicos de todo o país além de vários instrumentistas que fizeram carreira por aqui como o professor alemão Hans-Joachim Koellreutter, o baterista Cláudio Slon, nascido na Argentina, o contrabaixista norte-americano Bruce Henri, o saxofonista francês Idriss Boudrioua e o maestro italiano Enrico Simonetti.
Entre os autores dos ensaios estão Teco Cardoso (O saxofone), Maurício Carrilho (O violão de 7 cordas), Benjamin Taubkin (Piano brasileiro), Mônica Salmaso (O canto dentro da música), Henrique Cazes (O cavaquinho), Toninho Carrasqueira (Flauta brasileira), Ivan Villela (A viola), Djalma Correa (A percussão no Brasil) e o jornalista José Domingos Raffaelli (A história do samba jazz).
quarta-feira, 4 de março de 2009
Goodbye, Virgin Megastore!
Imagem encontrada e copiada do blog "I'm Learning To Share"
(http://learning2share.blogspot.com/), postada lá em 15/fevereiro/2008.
Em maio de 1996, fui conhecer a Virgin Megastore de Time Square...
Inesquecível... ao passar pela seção de CDs de música brasileira,
a voz de Gal Costa marcava o som ambiente...
Crise no mercado de música
Megastores da Virgin nos EUA fecharão as portas até o fim do verão americano
RIO - Após quase duas décadas atuando como uma referência do mercado de música no mundo inteiro, a Virgin — empresa britânica do segmento de vídeos, CDs e artigos ligados à indústria de fonográfica e de entretenimento — vai fechar todas as grandes lojas nos Estados Unidos até o fim do verão.
O motivo é a valor dos pontos onde estão instaladas as lojas, que podem render mais alugados do que com as vendas das lojas. Com isso, mil funcionários perderão o emprego.
As lojas mais modernas foram investimentos do bilionário e fundador da rede, Sir Richard Branson, e permanecem rentáveis, mas as imobiliárias responsáveis pela cadeia nos Estados Unidos disseram que poderiam aumentar a renda com novos inquilinos.
— Eu vinha protelando a decisão, com a idéia que esta seria mais uma vítima da indústria da música disse Simon Wright — o executivo principal da Virgin Entertainment Group Inc.
A economia desaquecida com a crise financeira internacional foi o golpe final para a decisão do fechamento das lojas. Para tentar competir com as músicas baixadas pela internet, principal causa das perdas financeiras, a Virgin já vinha diversificando o ramo de atuação dos negócios.
Nos últimos anos, suas lojas passaram a vender livros, roupas e também produtos eletrônicos. As lojas restantes geraram US$ 170 milhões de receita em um ano, bem abaixo dos US$ 230 milhões no apogeu do negócio, em 2002.
Time Square ficará sem a Virgin
A falta de planos de expansão e a crise internacional agravada em setembro de 2008 levaram à decisão de fechar a loja localizada na Times Square, no coração da cidade de Nova York. A filial tinha apresentado o melhor resultado, de US$ 56 milhões, no ano passado.
— Nossas seis melhores lojas são também os nossos seis melhores lojas do ponto de vista imobiliário - ratificou Wright.
A emblemática loja de 52 mil metros quadrados na Time Square, que virou um dos pontos de referência da cidade de Nova York, será fechada em abril. Em seguida, cerram-se as portas de outra loja na cidade.
O mesmo destino terão as filiais de Los Angeles, São Francisco, Orlando, Flórida, e Denver, todas em junho. Cerca de 1.000 funcionários das lojas e mais 60 no nível corporativo serão demitidos.
A primeira loja da Virgin nos Estados Unidos foi aberta em dezembro de 1992, em Sunset Boulevard, a avenida mais famosa da não menos importante cidade de Hollywood. Mas no início do ano passado foi fechada, quando expirou sua locação.
Mercado de músicas online foi a derrocada
Em sete dos últimos oito anos as vendas de música declinaram, em grande parte devido à partilha ilegal de arquivos através da internet. A tendência atual de comprar canções individuais, em vez de álbuns completos, através da Apple Inc, iTunes e outras lojas virtuais também contribuiu para a derrocada.
A Virgin também ficou conhecida pelas performances do seu proprietário nas inaugurações, que tornaram famoso em tinha lojas abertas muitas vezes com o tipo de acrobacias que ajudaram a tornar famoso Ricrad Branson. Em uma das lojas Branson foi vestido como o vocalista da banda Gun's and Rose, Axl Rose em uma loja de Hollywood, em 2005.
As lojas também serviam como uma maneira de lançar novos artistas ou promover ainda mais artistas já estabelecidos.
Mariah Carey andou no tapete vermelho da loja em Hollywood para a nova versão, em 2005 do álbum "The Emancipation of Mimi" e cantores como Avril Lavigne, Clay Aiken, Faith Hill e lançaram álbuns com noites de autógrafos, com maciça presença de fãs, que muitas vezes ultrapassavam o horário de funcionamento das lojas e seguiam por noite adentro.
— As pessoas podem ir na internet baixar as músicas online, mas nunca conseguirão substituir nossos eventos de divulgação de astros da música. A Times Square era particularmente famosa por causa disso — completou o executivo da Virgin nos EUA.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Do vinil ao CD...
O músico Charles Gavin, que busca títulos para relançar nas gravadoras
por Marcus Roberto, colaboração para Folha
Gravadoras investem menos no próprio acervo e desaceleram projetos para editar e lançar em formato digital títulos perdidos na era dos LPs
Nadando contra a corrente do atual mercado de música, dez álbuns gravados entre 1958 e 1980 por Alaíde Costa, Angela Maria, Beth Carvalho, Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, João Nogueira, Paulo Sérgio, Rosinha de Valença e Taiguara são transformados em CD pela primeira vez. Lançados pela EMI, eles chegam às lojas com repertório e projetos gráficos fiéis às versões originais.
Essa linha de edição, que traz para o formato digital títulos que estavam há muito tempo perdidos na era do LP, vem sendo gradualmente freada pelas gravadoras. E beira estacionar. O alerta vem dos principais profissionais que, contratados pelas próprias empresas, têm se dedicado a esse tipo de projeto na última década.
"Comecei a trabalhar com isso em 1998 e, desde então, consegui emplacar reedições em todas as gravadoras, todos os anos", lembra Charles Gavin, 48, baterista dos Titãs e um dos primeiros a garimpar os acervos das companhias de disco. "No ano passado, mesmo com o gancho do cinquentenário da bossa nova, não consegui emplacar nada -e olha que tentei em todas elas."Gavin lembra que, mais que mero prazer saudosista, a recuperação desses álbuns perdidos oxigena os artistas do presente e prepara a música do futuro.
"Tom Zé só passou a ser regravado quando seus discos voltaram em formato de CD. O mesmo vale para os Novos Baianos, João Donato, Marcos Valle...", enumera. "A nova geração de músicos do Brasil só está sendo influenciada por esses mestres porque teve, de novo, acesso a eles. E a gente não pode deixar isso parar."
Marcelo Froes, 42, outro veterano da área, também sentiu a queda. "Os anos de 2002/ 2003 foram os mais ativos para mim. São dessa época os boxes de Zé Ramalho, Fagner, Erasmo Carlos, Nara Leão, Gilberto Gil e Elza Soares", diz. "Diversos outros projetos foram preparados e nunca saíram. Reedições passam por uma questão de política interna, a tal "vontade de fazer", que independe do interesse comercial."
Devagar e sempre
Para Thiago Marques Luiz, 29, responsável pelos dez títulos que a EMI lança agora, não se trata de descaso das gravadoras. "Elas simplesmente não conhecem o próprio acervo", diz. "Um diretor de marketing não tem obrigação de saber que o primeiro LP da Dalva de Oliveira está inédito em CD e é bacana para o público dela."
Para Jorge Lopes, 50, do marketing estratégico da EMI, o que torna esse tipo de produto pouco viável é uma questão de "tempo na prateleira". "Ainda que os discos não encalhem e acabem sempre se pagando, o giro deles é muito lento", diz. "Estou com esse disco da Dalva na mão agora. Foram fabricados mil. Daqui a dois meses, eu te conto quantos tenho no estoque: serão no mínimo 500."
Outro pesquisador requisitado, Rodrigo Faour, 36, diz que a crise atingiu até os projetos relacionados a artistas de grande apelo popular. "Há anos eu tento relançar todos os álbuns da Simone, mas não consegui até agora. E olha que ela foi a maior vendedora de discos dos anos 80", lembra ele, que conseguiu viabilizar recentemente a caixa "Camaleão", com os 17 álbuns de Ney Matogrosso.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Música
“A música consegue tocar os sentimentos e a razão.
Ela carrega tudo que, em nós, nos une e nos faz sentir melhores.”
— Inácio Araujo, crítico da "Folha de S.Paulo", caderno "Ilustrada" de 11/fevereiro/2009.
link aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1102200921.htm
Um caminho para sermos escravos?
Escravidão eletrônica
por Marcelo Coelho
O sistema inventado pelo Google transforma cada portador de celular num preso virtual
PROCURO MANTER máxima distância do meu telefone celular. Por sorte, não é objeto imprescindível no meu cotidiano. Contaram-me de pessoas ocupadíssimas, que usam três celulares ao mesmo tempo.
Creio ter visto algumas delas em lojas ou elevadores. Berram no aparelho, que deveria ter algum mecanismo melhor de captação de som. Ou será que o mecanismo já é bom, e seus usuários não percebem?
Levo sempre um susto quando estou ao lado de uma pessoa, aparentemente normal e civilizada, e subitamente percebo que ela está falando em voz alta com alguém a quilômetros de distância.
Não sou ciumento, mas me sinto despossuído, roubado, ignorado, por alguém que prefere falar no celular em vez de manter o mesmo silêncio que eu. Será vaidade minha? Não sei. Prefiro pensar que se trata de um desrespeito: o falante do celular age como se eu não existisse.
Todo esse tipo de queixas se reduz à picuinha diante da última e assustadora novidade que li nos jornais.
Inventaram um jeito de localizar as pessoas por meio do celular. O serviço Latitude, do Google, descobre o paradeiro do cidadão que estiver com o celular ligado, desde que ele concorde em se inscrever no programa.
Em tese, como sempre, a invenção é boa: você marcou um encontro com um amigo (ou não marcou, pouco importa). Torna-se possível saber onde ele está, com visualização de mapas e tudo mais.
Amigos há muito tempo distantes se reencontrarão nas planícies de Mato Grosso, ex-mulheres poderão ser evitadas numa excursão às boates da moda, crianças perdidas reencontrarão os braços dos pais.
Fora essas situações extremas e cinematográficas, o Google Latitude se assemelha a outro dispositivo, contra o qual não me oponho. É o bracelete eletrônico, a tornolezeira punitiva que se usa para vigiar criminosos em regime de liberdade condicional.
Eis um instrumento maravilhoso, que evoca a velha imagem da bola de ferro presa com correntes ao tornozelo do prisioneiro, mas sob uma concepção moderna do ser humano: ele será livre, mas, graças à algema eletrônica, poderemos monitorá-lo. Que desperdício, afinal, de tempo e desconfiança, não existe em guardar um criminoso entre as grades?
Mas o sistema inventado pelo Google transforma cada portador de celular num preso virtual. O telefone móvel, que já era uma espécie de carro de bombeiros pronto a soar seu alarme em casos de emergência doméstica, torna-se uma espécie de radiopatrulha, pronta a detectar culpas e desvios de rota na vida de um cidadão honesto.
No mundo fantasioso do liberalismo, nenhum atentado à privacidade pessoal foi feito com essa invenção. O indivíduo escolhe soberanamente: instala o instrumento em seu celular ou não? Abre seus códigos para os amigos ou não?
Na vida real, os problemas são maiores. Uma indústria pode querer saber o que fazem seus vendedores e mensageiros quando se aventuram pelo mundo. Quantos trabalhadores serão obrigados a inscrever seus celulares no novo programa?
É verdade que a informática, até agora, esteve a serviço do trabalhador relapso. Sem ninguém ver, ele acessa sites de relacionamento pessoal nos horários de trabalho.
Uma questão subsiste, entretanto, nesse pega-pega entre o trabalhador e o patrão. Será realmente necessário o trabalho do empregado que foge o máximo que pode das exigências impostas no seu horário de serviço? Serão essenciais as horas integrais de esforço do funcionário que "tira uma folguinha" frequentando uma lan house ou um centro de videogames quando já está com sua missão cumprida?
Na outra ponta do espectro organizacional, o chefe aciona freneticamente as teclas do seu computador. Localiza o motoboy relapso nas imediações de uma praça onde ele não deveria estar. Brinca de videogame ele também.
São todos escravos, talvez, de um sistema eletrônico no qual a diferença entre jogo e trabalho tende a desaparecer, assim como a diferença entre vida pública e vida pessoal.Isso é bom? É ruim? Meu otimismo impede respostas apocalípticas.
Confio na esperteza (para o bem e para o mal) do ser humano. Logo inventarão maneiras de fugir aos novos braceletes celulares.
Logo inventarão meios de disciplinar mais o ser humano. Nesse jogo entre ordem e desordem, progredimos.
