segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Música & marketing
Nova revolução pop: marketing de produtos
por Jon Pareles — Ensaio, "The New York Times"
Em “Creator”, a faixa mais crua do álbum de estréia e auto-intitulado de Santogold, a cantora Santi White gaba-se: “Sou uma criadora/ A emoção é fazer acontecer/ As regras que eu rompo me colocam no radar”.
É um manifesto boêmio franco, ousado e atraente, ou pelo menos era para mim, até que apareceu em um comercial de cerveja. E em outro de gel para cabelo.
Acontece que a rebelde rompedora de regras é apenas mais uma marqueteira bem-remunerada. A revista “Billboard” relatou que três quartos do excelente álbum de Santogold já foram licenciados para comerciais, videogames e trilhas sonoras, e a própria White aparece em uma publicidade, cantando para tênis. Ela claramente decidiu que ligar sua música a outras agendas mais mercenárias é seu caminho mais direto para aparecer.
Eu sei que preciso me acostumar. Afinal, essa é a realidade do setor musical do século 21. Vender discos para consumidores como obras de arte caras a ser apreciadas por si sós é um empreendimento reduzido hoje, quando há cópias livres à vontade na web.
Enquanto as pessoas ainda amam a música o suficiente para encontrá-la, colecioná-la e discuti-la, muitas não vêem motivo para pagar por música. A solução prática que surge é deixar que a música venda algo concreto: shows, camisetas, anúncios nos sites ou marcas.
Os músicos precisam comer e querem ser ouvidos, mesmo que isso signifique acompanhar um produto ou o videogame. Por que esperar o pinga-pinga dos royalties dos discos se as taxas de licenciamento são pagas adiantadas e de uma vez? É uma parte do sistema de regulamentação dos direitos autorais que não foi destruída pela distribuição digital, e há pouca resistência de qualquer lado.
Música a serviço de marqueteiros?
A pergunta é: o que acontece com a música em si quando a construção de uma carreira deixa de ser gravar canções para ouvintes comuns e passa a ser fazer música para o uso de marqueteiros? Isso cria pressão, sutil mas real, para que a música recue: adotar o elemento de vazio que torna uma trilha sonora tão discreta, editar uma letra para ser menos específica ou particular, deixar lacunas para a imagem ou a mensagem a que a música agora serve. Talvez a canção ainda cause a primeira impressão essencial, mas não será tão memorável ou independente.
A música sempre teve funções acessórias: uma trilha sonora, um jingle, uma declaração de marca, um chamado de acasalamento. Mas para os artistas que têm um perfil público, em oposição a compositores contratados, a questão era chamar atenção para a música em si. Depois que eram notados, os astros podiam contar suas histórias de carreira e música, e as canções tinham a oportunidade de criar suas próprias esferas. Se um número suficiente de pessoas gostasse das músicas, a recompensa viria da venda de discos e das execuções no rádio.
Quando Moby licenciou todas as canções de seu álbum “Play” de 1999 para anúncios e trilhas sonoras, a medida foi surpreendente e de mau gosto, mas gerou vendas do CD; um álbum que reunia amostras de blues e gospel em batidas para dançar conseguiu vender mais de um milhão de cópias.
Hoje os discos de platina são muito mais raros. Com exceção dos grandes nomes —como AC/DC, que deu à Wal-Mart exclusividade nas vendas de seu muito esperado disco “Black Ice” e vendeu mais de um milhão de cópias em duas semanas—, um contrato de marketing é provavelmente sua própria recompensa, mais que um detonador de carreiras.
Sem querer parecer insensíveis, os músicos insistem que a exposição do licenciamento faz crescer o interesse que costuma recompensar em vendas e/ou lealdade. Escutar uma canção como “Forever”, de Chris Brown, no rádio ou em um comercial tem um componente psicológico: outra pessoa já a aprovou. Os músicos que não querem esperar uma execução em massa imediata nas rádios colocam sua música no ar vendendo-a para publicitários. Isso pode ajudar a construir carreiras, como fizeram os anúncios da Apple por Feist e pela grande beneficiária deste ano, Yael Naim, cuja “New Soul” apresentou o MacBook Air.
Os consumidores reforçam os licenciadores de um modo quase perverso: pagam pela música como ringtone, mas não como uma canção em alta fidelidade.
Talvez seja século 20 demais esperar que a música fique isenta de multitarefas, ou que a constante insinuação do marketing em cada momento de nossa consciência pare quando uma canção começa. Mas por enquanto experimente isto: escolha uma canção sem ligações comerciais. Aumente o som. Feche os olhos. E escute.
sábado, 20 de dezembro de 2008
Download free... Liberdade ainda que tardia?
Gravadoras americanas param de perseguir quem baixa música na internet
— da France Presse
A federação das gravadoras dos Estados Unidos (RIAA, sigla em inglês) anunciou nesta sexta-feira (19/dezembro/2008) que desistiu de perseguir as pessoas que baixam música ilegalmente na Internet. De acordo com a entidade, cabe aos provedores adotar medidas contra a pirataria.
A RIAA, que desde 2003 já acusou cerca de 35 mil pessoas por baixar músicas sem autorização na Web, revelou que trabalha em uma nova estratégia, com o secretário de Justiça do estado de Nova York, Andrew Cuomo, e com os principais provedores de acesso à Internet.
A entidade afirma que já obteve um acordo de princípios com vários provedores sobre um plano para defender os direitos autorais, que prevê advertências e até o fechamento da conta do usuário reincidente.
A associação de defesa dos internautas Electronic Frontier Foundation (EEF) saudou a decisão da RIAA de suspender sua perseguição.
Segundo a EEF, 5 bilhões de músicas são baixadas mensalmente no mundo sem a devida autorização, 40 vezes o número das canções compradas legalmente.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u481850.shtml
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
"Estilista musical": a trilha sonora sob encomenda
Como achar a música que mais combina com o sofá
por Kate Murphy, "The New York Times"
O som do seu iPod destoa do ambiente? Chame o estilista musical
Imagine entrar em um gracioso apartamento de Manhattan decorado com antigüidades do século 18, espelhos com molduras douradas e estofados floridos. Agora imagine o Metallica saindo das caixas de som.
Tanto quanto a luz, os tecidos ou as obras de arte, o som é capaz de alterar o espaço, mas até recentemente as pessoas confiavam só no seu próprio gosto para esse quesito. Agora, porém, cada vez mais gente contrata estilistas musicais para escolher a música para suas casas, do mesmo modo que contrataria um decorador para indicar móveis.
Embora há décadas se utilize a música ambiente para criar "arquiteturas sonoras" em espaços comerciais, só nos últimos cinco anos alguns consultores, especialmente em Nova York e Londres, começaram a se especializar na criação de trilhas que combinem com a decoração dos seus clientes.
"Ouvir a música errada no espaço errado pode ser muito desorientador", disse Coleman Feltes, conhecido como DJ por criar trilhas para desfiles de Versace, Gucci e Dolce & Gabbana. Desde 2006, ele presta serviços musicais individualizados em seu escritório de Nova York.
Feltes e outros estilistas musicais costumam visitar a casa do cliente e olhar suas fotos para avaliar o estilo de decoração e entender os layouts. Podem também mergulhar nas coleções de música da pessoa para conhecer os gêneros e artistas que mais lhe agradaram no passado.
"Às vezes é um troço realmente horrível", disse o estilista Angus Gibson, citando como exemplo as trilhas na linha "amor e luar" dos filmes de Meg Ryan. A sua Gibson Music, de Londres, fornece aparelhos de som sob medida, com as respectivas músicas, para clientes da Europa, da Ásia e dos EUA.
Os estilistas alertam que, mesmo que os clientes gostem de uma música que não é insípida, ela pode ser totalmente errada para um determinado espaço. "Você não vai colocar Johnny Cash para tocar num fantástico refúgio das Antilhas", disse Gibson. "Simplesmente não iria funcionar."
Os estilistas habitualmente cobram de US$ 50 a US$ 250 por hora de música, que costuma ser baixada em iPods, mas também pode ser gravada em CDs.
O incorporador e investidor imobiliário Joe Wagner, 50, contratou Feltes no ano passado para musicar duas casas suas com estilos diferentes - um rústico recanto com paredes de pedra e vigas de madeira em Aspen, no Colorado, e um casarão colonial branco em Palm Beach, na Flórida.
Feltes compilou cerca de 48 horas de música, divididas em listas específicas não só para cada residência, mas também de acordo com atividades e horas do dia. Assim, por exemplo, uma tarde na piscina em Palm Beach pede jazz latino, enquanto a apreciação matinal dos montes nevados em Aspen vai bem com ópera.
"Quando alguém entra e ouve uma música ótima, é como olhar uma pintura maravilhosa na parede, que lhe traz certas emoções", disse Wagner, que atualiza suas listas musicais trimestralmente. "Adoro não ter de pensar no que vou colocar. Já fizeram isso por mim."
sábado, 8 de novembro de 2008
Negritude na América branca
A casa branca
por Ruy Castro
RIO DE JANEIRO - Em 1938, Billie Holiday, cantora negra americana, não era admitida nos hotéis que hospedavam seus colegas da orquestra branca de Artie Shaw. O liberal Shaw armava um bode na recepção e, se Billie não pudesse ficar com eles, marchavam todos para fora da espelunca e da cidade.
Na década de 40, Duke Ellington, já tido como um dos homens mais elegantes da América, também só podia hospedar-se com sua orquestra nos guetos das cidades em que se apresentavam. Outra cantora negra, Lena Horne, era um grande nome da MGM, mas, de tão perigosamente linda, sua parte nos filmes limitava-se a um número musical — que pudesse ser cortado nos Estados racistas, sem prejuízo da trama.
Em 1956, o programa semanal de Nat "King" Cole na TV americana nunca atraiu um patrocinador nacional, e a NBC só o manteve no ar durante 64 semanas porque astros como Frank Sinatra, Peggy Lee e Tony Bennett ofereciam-se para cantar nele quase de graça. Os empresários temiam que seus produtos fossem boicotados se patrocinassem o programa de um negro.
Nessa época, um hotel de Las Vegas mandou esvaziar e lavar a piscina em que a estrela de sua boate, a maravilhosa Dorothy Dandridge, nadara naquele dia. Dorothy não tinha quem a defendesse da ofensa, porque seu namorado branco, o cineasta Otto Preminger, não a assumia publicamente.
Em 1960, ao lado de Sinatra e Dean Martin, Sammy Davis Jr. trabalhou duro na campanha de John Kennedy à Presidência. Com Kennedy eleito, Sammy Davis foi "desconvidado" para a festa de posse na Casa Branca por estar namorando uma das mulheres mais desejadas do país, a louríssima Kim Novak.
Daí que, para os americanos, a presença de Barack Obama e sua família na Casa Branca é — como se diz mesmo? — emblemática.
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Noite de Gala em Sampa, 25/outubro/2008

Por sorte, fui o primeiro a entregar o ingresso na entrada do belo e moderno Auditório Ibirapuera, em São Paulo (SP). Sentei-me na fila B, lado direito do palco.
Alguns minutos antes das 21 horas, a voz do crítico musical e escritor Zuza Homem de Mello (organizador do TIM Festival) anunciou o concerto da "Noite de Gala" com Rosa Passos.
Zuza definiu Rosa como "a grande estrela internacional da música brasileira" — e também "a cereja do bolo", mencionando recente crítica publicada no jornal argentino "El Clarín" — http://www.clarin.com/diario/2008/10/21/espectaculos/c-00502.htm —, que destacou seu elogiado concerto (também de encerramento) no Festival Buenos Aires Jazz, realizado no Coliseo da capital argentina.
Sob aplausos de uma platéia 80% lotada, Rosa e seu quinteto fabuloso iniciaram com a suingada "Vatapá", emendando com a suavidade de "Marina" — duas canções de Dorival Caymmi. Em "Marina", o pianista Fabio Torres fez um solo belíssimo, com Rosa e todos na platéia se deliciando.
Rosa estava feliz, pois sua família estava ali a assistindo (marido e filha). E seu neto João Lucas apareceu no palco para lhe dar um abraço e receber beijos da "vovó".
Em seguida, "Verbos do amor" (João Donato-Abel Silva), canção lançada por Gal Costa em 1982, teve Rosa em excelente forma, ensaiando passos de dança, com direito a um belo solo de sax de Vinicius Dorin.
A canção "Preciso aprender a ser só" (Marcos Valle-Paulo Sérgio Valle) teve solo de piston de Daniel D'Alcântara, mantendo o pique do concerto.
"Cadê você" (João Donato-Chico Buarque) ganhou solo de contrabaixo do Paulo Paulelli, o "Filhote" da cantora.
No palco, Rosa e Paulelli fizeram a sempre atraente sequência voz-violão-contrabaixo com "O que é que a baiana tem" (Dorival Caymmi), "Eu e meu coração" (Naldo Vilarinho-Antonio Botelho) que foi um dos pontos altos do concerto, uma delícia emocionante — e a suingada "Pra que discutir com madame" (Janet de Almeida-Haroldo Barbosa). Os sons percussivos que Paulelli faz com a boca e seu contrabaixo estavam "tinindo", emoldurando a voz de Rosa com a competência de sempre.
Com o quinteto de volta, menos D'Alcantara, Rosa mostrou porque é tão admirada mundo afora, cantando "Você vai ver" (Tom Jobim) de forma super suave e expressiva, com direito a um breve improviso em "scat", como merece um festival de jazz.
E emendou com "Águas de março" (Jobim), finalizando num pequeno duelo de voz e contrabaixo.
"Álibi" (Djavan) surgiu espalhando harmonias. Dorin fez novo solo, bastante aplaudido.
Rosa, então, deixou o palco para o quinteto (agora com D'Alcântara) tomar conta. Eles apresentaram uma estimulante jam session com "Samba de Almeida", melodia composta pelo pianista Fabio Torres e dedicada ao baterista Celso de Almeida — incluída no recente e ótimo CD independente do trio (Almeida-Torres-Paulelli).
Ao voltar à cena, Rosa trouxe sua renovada alegria ao cantar "Vestido de bolero" (Dorival Caymmi), que levantou a platéia em outro ponto alto do concerto.
Ao marido na platéia, ela dedicou "A ilha" (Djavan), acompanhada do trio piano-baixo-bateria. Nesta canção, Paulelli executou um solo maravilhoso no contrabaixo, com Rosa extasiada a seu lado. Ela finalizou improvisando um "scat" de-li-ci-o-so... Que marido sortudo o de Rosa!
O concerto encerrou com "Samurai" (Djavan) e um ótimo solo de D'Alcântara.
Aplausos... Aplausos... Aplausos...

Ninguém queria ir embora. Com o público todo de pé, persistindo nos aplausos, Rosa e quinteto retornaram para o bis com "Ladeira da Preguiça" (Gilberto Gil).
Saíram do palco, mas ninguém estava satisfeito ainda. Mais aplausos insistentes — e os músicos tiveram de voltar à cena.
"Não sei o que dizer, o que cantar", comentou Rosa, surpreendida com o público pedindo mais. Depois de consultar os músicos, alguém da platéia sugeriu "O pato" (Jayme Silva-Neusa Teixeira). E ela, aliviada: "Ah! que bom, essa é fácil! E meu marido também já tinha sugerido". E o grupo atacou no improviso. Rosa cantou e brincou com a letra e fez o grupo improvisar em solos individuais, um a um.
O show não poderia ser melhor.
Saindo do palco, felizes com a missão realizada, os músicos se abraçaram, mesmo na penumbra eles sorriam entre si, como uma família plena de harmonia. Irmãos musicais que espalham belezas pelo ar...
••• Fotos de Marlene Alves, que também assistiu ao concerto e gostou muito.
domingo, 21 de setembro de 2008
Billie, Monk & Getz
+Cultura
O escritor japonês Haruki Murakami relembra três das maiores lendas do jazz
O perdão de Billie
por Haruki Murakami
Eu ouvia muito Billie Holiday quando era jovem e a achava comovente. Mas só fui apreciar de fato o quanto era maravilhosa mais tarde, quando estava bem mais velho. Acho que isso quer dizer que envelhecer traz, sim, algumas compensações. Nos velhos tempos, eu ouvia a música gravada por Billie na década de 1930 e no início da de 1940.
Naqueles anos, sua voz era jovem e nova, e Billie lançava uma canção após outra, a maioria relançada mais tarde pela Columbia nos EUA.
Essas canções eram repletas de imaginação e vôos melódicos acrobáticos. O mundo inteiro dançava no ritmo do suingue de Billie Holiday.
Quero dizer que o planeta se mexia, de fato. Não estou exagerando. Estamos falando aqui de magia, não simplesmente arte. O único outro músico que conheço que possuía virtuosismo tão mágico foi Charlie Parker.
O eu mais jovem não ouviu com tanta atenção as gravações posteriores de Billie Holiday, sua fase na Verve, canções que ela gravou quando as drogas tinham endurecido sua voz e corroído seu corpo.
Ou talvez, quem sabe, eu tenha mantido distância consciente delas. Eu achava suas canções daquela era, especialmente as dos anos 1950, dolorosas, opressivas, patéticas. À medida que fui passando pela casa dos 30 anos e depois dos 40, porém, me vi colocando esses discos na vitrola com freqüência cada vez maior.
Sem me dar conta disso, eu estava começando a sentir desejo e necessidade, física e emocional, daquela música.
O que havia nas canções posteriores de Billie Holiday -canções que poderíamos descrever como alquebradas- que eu era cada vez mais capaz de escutar e que eu não escutara antes? Ando pensando muito sobre isso. Por que essas canções passaram a exercer atração tão poderosa sobre mim?
"Está tudo bem"
Entendi recentemente que a resposta talvez envolva a idéia de "perdão". Quando ouço as canções posteriores de Billie Holiday, posso senti-la abrindo os braços para abraçar os corações das muitas pessoas que magoei ao longo de minha vida e dos meus escritos, as pessoas que sofreram devido a meus muitos erros, e aproximando-as dela. "Está tudo bem", ela canta para mim.
Deixe estar. Isso não tem nada a ver com "curar feridas" - não estou sendo curado de modo nenhum. É perdão, puro e simples.
Sei que essa interpretação da música de Billie Holiday é profundamente pessoal. Eu jamais sugeriria que ela se aplica a todos. É por isso que recomendo sua maravilhosa coleção lançada pela Columbia. Se eu tivesse que escolher uma só canção dela, seria sem dúvida alguma "When You're Smiling". O solo de Lester Young no meio também é um deleite, um trabalho de gênio.
"Quando você está sorrindo, o mundo inteiro sorri com você."E o mundo sorri, de fato. Você pode não acreditar, mas é verdade - ele fica radiante!
Thelonious mágico
por Haruki Murakami
Em certa etapa de minha vida eu me sentia atraído pela música de Thelonious Monk, como por uma atração fatídica. A cada vez que ouvia o som inconfundível de seu piano - como um cinzel golpeando gelo duro em algum ângulo estranho, mas eficaz-, eu suspirava: "Isso sim é jazz!". Ela me alegrava e inspirava.
Mesmo hoje, um cenário em especial me conecta com Monk: café preto forte, um cinzeiro repleto de pontas de cigarro, um conjunto de grandes alto-falantes JBL, um romance parcialmente lido (pode ser algo de Georges Bataille ou William Faulkner), o primeiro suéter do outono, a solidão friorenta de um pequeno café onde se toca jazz.
Ainda adoro imaginar essa cena. Talvez ela tenha pouca ligação com qualquer coisa que tenha acontecido de fato, mas está preservada em minha memória, perfeitamente equilibrada, como uma foto bem composta.
A música de Monk era obstinada e doce, intelectual e excêntrica; entretanto, por alguma razão que nunca fui capaz de identificar, ela sempre acertava o alvo em cheio.Era como um "homem misterioso" que aparece sem aviso prévio, coloca algum objeto incrível sobre a mesa e então some sem dizer palavra.
Ouvir a música de Monk quando se está sozinho é como abraçar algo misterioso. Miles Davis e John Coltrane foram músicos de genialidade espantosa, mas nenhum deles foi um homem misterioso, nesse sentido do termo.
Não me recordo bem quando foi que a música de Monk começou a perder seu brilho original, quando o mistério deixou de ser mistério. Assim como o próprio Monk foi lentamente sumindo na névoa, sem que eu me desse conta disso, o mesmo aconteceu com o equilíbrio e a aura de mistério do cenário do qual ele fizera parte. Então veio a incoerência daquela menos heróica das eras, os anos 1970.
Comprei o LP de título simétrico de Monk, "5 by Monk by 5", numa loja chamada Marumi Records, perto do santuário Hanazono, em Shinjuku, no centro de Tóquio. Era um disco importado - logo, bastante caro para mim, em vista do estado de minha carteira.
Solidão
Ouvi "5 by Monk by 5" inúmeras vezes, sem nunca me entediar. Cada nota, cada frase musical, era tão rica, tão repleta de alimento, que era possível espremê-la mais e mais, sem que seu sumo se esgotasse. E eu, com o privilégio especial que às vezes acompanha a juventude, absorvi cada gota dele em minhas próprias células.
A música de Monk tocava constantemente em minha cabeça, mesmo quando estava simplesmente andando na rua. Mas nunca pude explicar a ninguém a razão do grande amor que sentia por Monk. Parecia que as palavras certas para isso não existiam.
Então me dei conta: essa é uma das formas mais intensas que a solidão pode assumir.Mas não havia problema. Sim, eu estava só, mas estava bem assim. Hoje me parece que, naquela época, eu estava determinado a reunir todas as formas de solidão possíveis. Ao mesmo tempo em que fumava uma montanha de cigarros.
O anjo Stan Getz
por Haruki Murakami
Stan Getz foi um homem complexo, emocionalmente problemático, cuja vida dificilmente poderia ser descrita como feliz ou tranqüila. Seu ego era como um trator, enquanto seu corpo era corroído constantemente por quantidades maciças de álcool e drogas.Na verdade, praticamente não conheceu um momento de paz desde o dia em que nasceu até o dia de sua morte.
Quase sempre, feriu as mulheres de quem se aproximou, e seus amigos acabaram se afastando dele, enojados.
Porém, por mais violenta que possa ter sido a vida do Stan Getz de carne e osso, a doce magia que animava sua música, como o bater de asas de anjos, nunca se enfraqueceu. Quando pisava no palco, com o instrumento nas mãos, todo um novo mundo nascia.Como o pobre rei Midas, cujo simples toque transformava tudo em ouro.
Podemos enxergar ouro, também, nas melodias brilhantes que estão no cerne da música de Getz. Por mais quente que fosse o refrão fora do tempo que ele estivesse criando, sempre era espontaneamente lírico e brilhante.
Como um cantor abençoado por Deus com uma voz perfeita, Getz manipulava seu sax tenor com virtuosidade absoluta, tecendo versos de clareza transcendente, sem palavras. A história do jazz já teve inúmeros saxofonistas, mas nenhum outro foi capaz de tocar com tanta intensidade e paixão quanto Getz, sem descambar para o sentimentalismo barato.
Ao longo dos anos já mergulhei e me perdi em muitos romances e me deixei enfeitiçar por muitas performances de jazz. Mas, para mim, F. Scott Fitzgerald sempre será sinônimo de "o romance" e Stan Getz, de "jazz". Pensando bem, há certas semelhanças entre os dois homens.
Crueldade
A arte de cada um deles tinha vários defeitos evidentes -isso é algo que deve ser dito claramente. Mas, se não tivessem pago o preço desses defeitos, é pouco provável que nos legassem obras de beleza tão duradoura.
De todas as obras de Getz, minha favorita é o álbum duplo gravado ao vivo no clube de jazz Storyville em 1951 [pelo selo Blue Note]. Getz realmente se supera nessa performance: cada faceta de sua arte é magnífica.
Experimente ouvir, por exemplo, a faixa intitulada "Move". A seção rítmica de Al Haig, Jimmy Rainey, Teddy Kotick e Tiny Kahn é perfeita, direta e cool, mas seu ritmo flui com a força incandescente de lava subterrânea.
Mesmo assim, Getz é de longe o melhor. O que explica essa força?
É que suas melodias despertam o bando de lobos famintos que cada um de nós esconde na alma. O hálito delas afunda na neve tão espessa, branca e linda que você tem a impressão de que poderia cortá-la com uma faca. É isso o que a música de Stan Getz nos permite contemplar: a crueldade fatídica oculta nas selvas impenetráveis de nossas almas.
- A íntegra destes textos saiu na "Believer". Traduções de Clara Allain.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
New Orleans, Louisiana...
Alegre, bonita e inocente
por Ruy Castro
RIO DE JANEIRO - Por sorte, o furacão Gustav se apiedou e passou ao largo de Nova Orleans. Tivesse repetido a fúria do Katrina, há três anos, e a devastação seria definitiva. Não foi desta vez, mas, um dia, será. Nova Orleans, construída na rota dos furacões, tem regiões abaixo do nível do mar -não custa muito para ser levada de um gole.
É das poucas cidades do mundo (e a única americana) que despertam um sentimento universal de ternura. Em toda parte, há gente que ama Nova Orleans sem nunca ter ido lá. É o meu caso. Basta um mínimo de formação jazzística para ficar íntimo de suas ruas ou casas, muitas delas títulos de músicas.
Ruas como a Basin, Canal ou Perdido — qual jazzista não conhece "Basin Street Blues", "Canal Street Blues" ou "Perdido"? Louis Armstrong (que nasceu numa aléia da Perdido) imortalizou "Mahogany Hall Stomp", referente ao extinto Mahogany Hall, o bordel de madame Lulu White, de luxo inacreditável. Jelly Roll Morton compôs "Pontchartrain Blues", em homenagem ao lago Pontchartrain, que, quando transborda, alaga a cidade inteira. E a zona do West End, ao pé do lago, inspirou o "West End Blues", de King Oliver.
Diz-se que o berço do jazz foi Storyville, o bairro da prostituição em Nova Orleans, que a lei mandou fechar e demolir em 1917. Expulsos do paraíso e sem ter onde tocar, os músicos começaram a longa peregrinação — por Memphis, St. Louis, Kansas City, Chicago e, finalmente, Nova York — que teria propagado aquela música pelos EUA.
Nova Orleans é amada porque nos remete à infância do jazz, com aquela polifonia alegre, bonita e inocente — anterior ao cerebralismo genial de Duke Ellington e Thelonious Monk, ao virtuosismo trágico de Billie Holiday e Charlie Parker ou à cara amarrada de Miles Davis e John Coltrane.
